quinta-feira, 8 de maio de 2014

O velho e o cobrador



O ônibus, em condições decadentes, fazia bastante barulho. Havia poeira acumulada nos bancos – alguns, rasgados – e nas janelas, que vinham abertas. Os passageiros mais perspicazes entenderiam a proposta: desenhar no pó sempre fora um jeito lúdico de extravasar a arte – as mãozinhas das crianças e os carros sujos, indefesos, no meio da rua, sabiam disso muito bem.

O descaso com o veículo já nem era percebido. Acostumadas a ter pouco, as pessoas contentavam-se com o que tinham. As cortinas das janelas não viam água e sabão há muito tempo: nem o sol, ardido, no rosto dos passageiros, era motivo suficientemente forte para que estes as tocassem. A velha roleta, localizada próximo à porta traseira, fora abandonada pelo jovem cobrador, que se equilibrava no corredor, catando trocos na velha pochete. Ainda assim, cumpria sua função: girava e girava, seguindo a marcha dos corpos. Um moinho de gente. Um moinho de gente cansada. 

Assim que o ônibus parou, o velho, corpulento, de olhos claros e cabelos brancos, entrou pela porta da frente. Nas mãos, trazia uma sacola plástica com meia dúzia de coisas. Contrariado, reclamou com o motorista. O motor, que berrava alto, impediu os demais passageiros de compreenderem a causa da insatisfação. Ainda de pé, equilibrando-se, o velho dirigiu seu vozeirão ao cobrador. A queixa: o ônibus não havia parado para recolhê-lo, uma ou duas horas antes, em outra rua da cidade. O cobrador alegava, sem muita paciência, que não podiam recolher ninguém que estivesse fora do ponto de ônibus. A discussão se arrastava. Os passageiros, confusos, esforçavam-se para entender o que acontecia – e disfarçavam o incômodo como podiam.

- Tu paga passagem? – perguntou o cobrador.
- Não – respondeu o velho.
- Então, não tem direito de reclamar.

Alguns segundos depois, as vozes alteradas se calaram. O barulho do motor voltou a reinar, absoluto, sufocando o silêncio daquela gente cansada demais para dizer o que deveria ser dito àquele jovem, que também será velho, embora, aparentemente, tenha se esquecido disso.

O cenário: no Brasil, estima-se que, em 2030, o número de pessoas com idade superior a 60 anos representará 18,62% da população. No Rio Grande do Sul, a população de idosos corresponderá a 24,28% do total de habitantes do estado (que será de, aproximadamente, 11,5 milhões). A projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em agosto de 2013, foi baseada no aumento da expectativa de vida e nas quedas das taxas de natalidade e fecundidade.

Em Taquari, cidade na qual vivem o velho e o cobrador, os resultados do Censo Demográfico 2010 indicaram uma população de 26.092 habitantes, dos quais 3.703 (14,19%) tinham idade igual ou superior a 60 anos – 1.628 homens e 2.075 mulheres (veja no gráfico). 

Fonte: IBGE
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O ensaio: neste cenário, os atores precisam estudar o roteiro, lidar com o improviso, treinar em frente ao espelho. O idoso é o reflexo no espelho. Um reflexo do futuro. Suas rugas e seus cabelos brancos profetizam uma realidade que pode parecer distante, mas chega, mais tarde  ou mais tarde.

2 comentários:

Deko Lautert disse...

Legal a folha amarela e verde!

Cris Lautert disse...

Ai, André! Hahaha.