terça-feira, 2 de julho de 2013

Indo para a rua sem sair de casa



O livro O olho da rua, de Eliane Brum, apresenta dez reportagens produzidas pela jornalista para a revista Época. A repórter fala da vida, da morte, das lutas travadas nos grandes centros e no “começo do mundo”. Escreve sobre vidas interrompidas antes dos vinte anos e sobre vidas que se acabam dentro de asilos. Faz o leitor transitar por um Brasil distante; por casas, barracos, florestas e hospitais sem que seja necessário sair do sofá. Após as reportagens, Eliane Brum relata o processo de produção, os bastidores, as percepções que teve em cada experiência. Os relatos mostram os caminhos percorridos, as decisões tomadas no exercício da profissão, o compromisso que o jornalista assume quando decide contar a história de alguém.

Uma característica marcante das reportagens é o trabalho de apuração meticuloso da repórter. A riqueza de detalhes torna os textos atraentes, os personagens quase palpáveis. Estes também são muitos. Uma profusão. São apresentados a todo o momento ao leitor, sendo relacionados uns aos outros, contando a história aos poucos. A linguagem utilizada pela jornalista também merece atenção. Eliane Brum coloca muito de si nos textos. Não é à toa o subtítulo do livro – Uma repórter em busca da literatura da vida real. A realidade parece ficção, é contada com prosa, sentimento, envolvimento. O olho da rua é um livro para quem se interessa por boas histórias.

A obra também oferece valiosas lições para os estudantes de jornalismo. Ensina que é preciso sair da redação, ir para a rua, mergulhar na realidade que se pretende mostrar. E ouvir. Ouvir muito. Uma das lições deixadas pela autora é esta: “Como repórter e como gente eu sempre achei que mais importante do que saber perguntar era saber ouvir a resposta”. E a resposta, por vezes, é dada sem que a pergunta precise ser feita. “Eu não arranco nada, só me comprometo a ouvir”, diz a autora.

As dez reportagens e os depoimentos da jornalista permitem compreender o quanto uma matéria pode ser rica, profunda, crua e, ao mesmo tempo, humana. Crua porque a realidade é assim mesmo, precisa ser mostrada; humana porque a subjetividade dos personagens e da própria repórter possuem lugar de destaque nos textos. Percebe-se o quanto uma informação pode ser trabalhada, tornar-se atraente e vencer o engessamento dos roteiros preestabelecidos pelos jornalistas.

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