quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Política sem cara de política



As práticas das associações de moradores em muito se assemelham à política convencional

Cristiane Lautert Soares
            
 Sábado. Oito da manhã. Anselmo Junqueira dos Santos – o Pretinho –, 62, presidente da Associação de Moradores do Rincão São José, em Taquari, aguardava o momento em que seria entrevistado. Em frente a casa, segurava a cuia de chimarrão, trazia um sorriso no rosto e vestia um blusão azul. Quando viu a câmera fotográfica, não hesitou: pediu licença para trocar de roupa.
 - Pronto, agora estou apresentável – disse, ao voltar do quarto vestindo um casaco cinza.
Satisfeito com o traje, sentado no sofá da sala, respondeu a duas, três perguntas, e convidou:
- Vamos lá na Associação? É pertinho, eu te mostro tudo. Tem ata, tudo reguladinho.

Pretinho: devidamente "apresentável"

E fomos. Lá, a conversa teve a companhia da esposa de Pretinho, Marlene Porto dos Santos, e do vice-presidente da associação, José Paulo Viana de Medeiros. Aos poucos, os três contaram sobre o funcionamento e a importância da associação de moradores para a localidade.

Bate-papo na Associação de Moradores

Para melhorar a qualidade de vida das comunidades que representam, as associações seguem estatutos próprios, nos quais, dentre outras orientações, figuram como direito dos associados “votar e ser votado” para qualquer cargo da diretoria e do conselho fiscal. No entanto, foi sem votação que Pretinho chegou ao cargo. Morador do bairro desde 1962, foi indicado diretamente pelo prefeito, há seis anos, para assumir uma associação praticamente desativada. “Ninguém queria o cargo, porque é trabalho voluntário”, explica. Ao lado da mulher, o aposentado mantém a sede da associação limpa e organizada para alugá-la a pessoas da comunidade - e de outros bairros - que queiram realizar eventos. Os valores arrecadados, bem como os de bingos, rifas, festas, bailes e jantares, são revertidos para a manutenção da sede, compra de equipamentos e o pagamento das tarifas de água e luz.

Assim como Pretinho, o vice-presidente José Paulo Viana de Medeiros, 59, e o restante da diretoria não receberam votos dos moradores para o exercício de seus cargos. “Eu não sabia de nada. Quando vi, meu nome tava lá. O Pretinho tinha me indicado. Peguei junto, porque ele se compromete de verdade”, conta. Os demais membros foram, aos poucos, sendo integrados à diretoria. “Uns a gente convidou, outros se ofereceram como voluntários”, lembra Pretinho.

Nesses seis anos, não houve eleições para a escolha de um novo representante. Nenhuma nova chapa foi formada, ninguém se candidatou à vaga. Pretinho foi ficando, ficando, e ainda não sabe quando deixará a presidência da associação. “Se eu pudesse largar amanhã, para uma equipe que fosse fazer igual ao que a gente faz, eu largaria. Mas, se é para eu largar na mão de quem não vai cuidar, continuo por mais uns dez anos”, garante.

As reuniões da associação ocorrem de dois em dois meses, mas não contam com a participação efetiva da comunidade. Nem mesmo todos os membros da diretoria comparecem. “Não aparece quase ninguém; fazemos entre nós mesmos”, revela José Paulo, o vice. E Pretinho acrescenta: “É ruim. A associação não é minha, é de todos. Se todos participassem, tudo estaria muito melhor”.

O comerciante Miguel Bittencourt de Oliveira, 48, membro do conselho fiscal da associação, procura participar das reuniões, mas não consegue ir a todas. “Participo porque tenho uma voz ativa na comunidade. Colaboro o máximo que posso, em todos os sentidos: no meu trabalho, nas doações, em qualquer coisa”, expõe. Para ele, a pouca participação da comunidade é um fator cultural. “A gente sabe que o pessoal não tem esse costume. Quem trabalha mesmo é a diretoria, principalmente o presidente”, afirma.

Imagem de Eastop - SXC.HU
"Quando se fala em associação de moradores, 
se fala de uma ação política que está fora da 
estrutura formal de representação por mandato. 
É a política da sociedade civil”. Cesar Goes
O sociólogo Cesar Goes, 49, considera as associações lugares de participação popular. “Quando se fala em associação de moradores, se fala de uma ação política que está fora da estrutura formal de representação por mandato. É a política da sociedade civil”, esclarece. Como forma de política, a associação tem o papel legitimado de traduzir o que a comunidade precisa. “Ela tem o poder de ir para a Câmara de Vereadores, por exemplo, e discutir as demandas do lugar”, ressalta o sociólogo.


COMUNIDADE ATIVA


A ação de maior destaque desenvolvida na associação é o Projeto Vida e Saúde, que visa tirar a comunidade do sedentarismo. Sob orientação de dois profissionais de Educação Física, cerca de 30 pessoas, de meia e terceira idades, participam das aulas, três vezes por semana. A maior parte da turma é feminina.

Projeto Vida e Saúde: ação visa tirar a comunidade do sedentarismo

Fabiana Kroth Pereira, 35, uma das orientadoras, pede para que os participantes se preparem e põe uma música animada para tocar. O fim de tarde de uma segunda-feira não desanima os participantes. A aula começa. Os colchonetes utilizados nas atividades foram cedidos pelo Departamento de Assistência Social da Prefeitura de Taquari; já outros materiais têm o toque de criatividade dos participantes: garrafas PET de 600 ml cheias de areia tornam-se pesos, cabos de vassoura auxiliam os exercícios, steps são improvisados com jornal.

Após as atividades, um papo descontraído com os participantes evidencia a importância do projeto. 
- Eu sou a mais novinha do grupo! - garante Vilma Goethel Bitencourt.
- E quantos anos a senhorita tem? - pergunto.
- Oitenta! – responde, com orgulho.
De acordo com Vilma, moradora do bairro há 60 anos, as atividades desenvolvidas no projeto já deram resultado. “Fiquei mais forte. Andava mal da coluna, não podia caminhar. Hoje, já faço quase tudo”, conta, satisfeita.

Vilma Goethel: animação e movimento aos 80 anos

Para Marlene Porto dos Santos, 56, a atividade física vem acrescida de um benefício: “Entrosa as pessoas, todo mundo é muito amigo, apegado”. Zélia Rocha Ventura, 59, moradora da localidade Beira do Rio, concorda. Na falta de uma associação de moradores onde reside, e de projetos como o desenvolvido no Rincão São José, ela participa – desde abril – das atividades físicas nos três dias da semana. “Vindo aqui, a gente consegue se integrar com outra comunidade e ainda se exercita. Sinto falta disso onde moro”, observa. Eliane Terezinha Rocha, 59, também da Beira do Rio, já se sente parte da comunidade. “Fomos muito bem recebidos aqui”, fala, entre sorrisos, aos demais integrantes da roda de conversa.

Além do Projeto Vida e Saúde, outra ação que envolve atividades físicas pode chegar ao bairro, em breve. Pretinho solicitou, junto a Câmara de Vereadores, verba municipal para a construção de uma pista de atletismo, no pátio da associação. A ideia é proporcionar um espaço no qual a comunidade possa fazer caminhadas.

Depois que todos os participantes do projeto se retiram, Pretinho responde à pergunta final: 
- Qual a importância da associação na tua vida e na vida dessas pessoas?
- As pessoas merecem. É importante chamar mais para perto, chamar o pessoal para discutir o que precisa, ajudar a quem precisa. Isso é importante. A união.
- Isso muda tudo - concordo.
Pretinho para e pensa. Em seguida, fala como se explicasse a si mesmo o motivo pelo qual abraça a causa. Marca, com as mãos, o fim de cada oração.
- Muda. Eu amo isso aqui. Faço por amor à camiseta. Eu gosto. É tão gratificante que parece que tenho 15 anos.

Assista:

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Reportagem publicada originalmente no jornal-laboratório Unicom, do Curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Tema: Qual a cara da política? Novembro/2012.

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