quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Cinema, teatro e prevenção às drogas

Uma nova fórmula para um velho problema

Cristiane Lautert Soares


“Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Em Venâncio Aires, a célebre fórmula de Glauber Rocha para se fazer cinema tem ganhado novos ingredientes: um grupo teatral amador e o problema das drogas. É com essa mistura que a Cia. Afro-Cena, em parceria com a Back Produções, gravou dois filmes – 360 e A idade da pedra – e vem desenvolvendo projetos de prevenção às drogas para crianças e adolescentes do Rio Grande do Sul e de fora do estado.

Diretor da Cia. Afro-Cena, Sérgio Leandro da Rosa conta que o grupo teatral teve início a partir de um espetáculo montado em 2007 – Negras: um toque feminino na história. Em fevereiro de 2008, após alguns participantes da peça demonstrarem interesse em continuar fazendo teatro, o grupo começou a pensar no trabalho de forma mais organizada e profissional. “Nosso objetivo é mostrar que a cultura tem o poder de transformar as pessoas, de tocá-las”, explica Sérgio.

Sérgio, diretor da Cia. Afro-Cena e dos filmes

A parceria com Maico Back, proprietário da Back Produções, começou em 2008, com a gravação do média-metragem 360 – roteirizado e dirigido por Sérgio Rosa. A ideia de realizar projetos antidrogas veio logo depois do filme. “O média já era um trabalho que buscava deixar algo para as pessoas, mas foi no decorrer das exibições do filme que demos a devida atenção ao problema”, afirma Maico.

Nas primeiras exibições em escolas, Sérgio e Maico perceberam que o que interessava às crianças e aos adolescentes não era a produção do filme, mas o assunto nele tratado. Passaram, então, a viajar pelas cidades e a promover sessões comentadas, que consistiam na exibição dos filmes – em 2010, gravaram o A idade da pedra – seguida de um bate-papo.

Para Sérgio, as sessões comentadas e a participação das crianças e adolescentes são fundamentais para o desenvolvimento do projeto. “É muito fácil dialogar com a molecada. Procuramos usar a linguagem deles”. Maico comenta que experiências emocionantes já marcaram as sessões. “Por onde passamos vimos crianças no final da exibição, chorando, por identificarem algumas cenas do filme no seu cotidiano”. O bate-papo é conduzido a partir das reações percebidas no público. “Durante as sessões, é preciso ler o que está nas entrelinhas, na reação dos alunos”, ressalta Sérgio.

Sessão comentada em Esmeralda - RS

Integrante da Cia. Afro-Cena, Adriano da Conceição foi convidado pelo diretor Sérgio Rosa para atuar nos dois filmes. Para o ator, os filmes foram desafiadores em termos de interpretação. “Interpretei o que, infelizmente, presenciei em meu cotidiano: amigos que se envolveram com este mal, fazendo com que suas famílias pagassem o alto preço das drogas. Muitas vezes fui tomado pela emoção, pois as cenas me faziam lembrar de momentos difíceis”, revela.

 

Álcool e cigarro também são drogas


No bate-papo, após as exibições dos filmes, Sérgio procura dar atenção especial à questão do álcool. “É a droga mais letal que tem e não nos damos conta disso. A brincadeira de deixar a criança tomar a espuma da cerveja pode ser o início de um grande problema”, lembra. Ele ressalta, ainda, que o álcool está presente onde não deveria estar, e que a mensagem passada a crianças e adolescentes por meio da publicidade pode ter efeito negativo sobre estas. “Quando começamos a viajar com o 360, era período de Copa. As instituições que mais se preparam para a Copa são as escolas. E os patrocinadores são as grandes empresas de bebida. Os ídolos vendem esse tipo de droga. Só que a bebida nada tem a ver com o esporte”, reflete.

Sérgio acrescenta que dizer não às drogas é dizer não a todas as drogas – álcool e cigarro, embora legalizados, também são prejudiciais à saúde. Para ele, o exemplo é fundamental. “De nada adianta fazer uma semana de palestras, filmes, sessões de bate-papo, se o que é mostrado e debatido não for vivido”.

 

Em casa e na escola


A participação de pais e professores é vista pelos idealizadores do projeto como fundamental para a eficácia da prevenção. Contudo, o fraco engajamento de docentes de algumas escolas é observado pelo diretor e roteirista Sérgio Rosa como um aspecto negativo, capaz de desestimular as crianças e os adolescentes. Para ele, a prevenção depende da colaboração mútua entre os agentes, as escolas e os pais. “Na maioria das escolas em que vamos, enquanto estamos com os alunos, os professores não ficam participando do debate. Isso tira a credibilidade da proposta”, expõe.

Na opinião da diretora da Escola Frida Reckziegel – de Vila Palanque, interior de Venâncio Aires –, Maria Angelica Regert Scherer, a iniciativa do grupo em produzir os próprios filmes e trabalhar a prevenção é respeitável. “Droga é um assunto difícil, precisamos  nos aprofundar muito, estudando e pesquisando para termos o conhecimento necessário e transmitirmos uma mensagem verdadeiramente importante e correta”. Os filmes 360 e A idade da pedra foram apresentados na escola para professores, funcionários, alunos do ensino fundamental – do 5º ao 8º ano – e do ensino médio.

Sessão na Escola Frida Reckziegel, em Vila Palanque, Venâncio Aires

De acordo com Sérgio, estabelecer contato com os pais é uma tarefa difícil. O grupo tentou fazer sessões para a comunidade, a fim de trazê-los para a conversa, mas não obteve resultados. “A drogadição acaba sendo um assunto tabu. Os pais pensam que, se conversarem com seus filhos sobre drogas, vão deixá-los curiosos. Eles não querem trazer essa responsabilidade para si e acabam não indo buscar a informação”, avalia Sérgio.

 

Prevenção é melhor do que repressão


Embora o trabalho de prevenção às drogas seja desenvolvido há mais de quatro anos, Sérgio revela que a prevenção não oferece resultados mensuráveis. “As pessoas podem deixar de usar em função da sessão, mas nós nunca temos como saber. É claro que a gente acredita que pessoas pararam de usar por causa do projeto”. Conforme Sérgio, investir em prevenção é investir em um projeto cultural a longo prazo. “Existe tratamento e repressão, mas não adianta prender quem tem 18 anos e usa drogas e não fazer nada por quem tem 11 e pode vir a usar. É melhor prevenir do que deixar a pessoa ficar doente e depois repreender”, argumenta.

Sérgio em bate-papo com crianças e adolescentes em Vacaria – RS

Comissário da Polícia Civil de Vacaria, João Carlos Pinto de Abreu acredita que o projeto atinge o objetivo da prevenção primária às drogas. “Não é só o filme, que é belo, bem feito, com atores e atrizes amadores, mas com elevado profissionalismo, e sim todo o contexto do projeto, que finaliza com a conversa com o público, esclarece, tira dúvidas e conscientiza para a prevenção”, afirma. A idade da pedra foi levado para o município a convite do Conselho Municipal Antidrogas (COMAD) com a parceria da Polícia Civil de Vacaria, em agosto de 2011. Foram realizadas seis sessões, com média de 400 estudantes em cada uma.

Na opinião do comissário Abreu, a prevenção deveria receber mais investimento. “É um mecanismo forte para a Polícia Civil. Auxilia a diminuir a violência causada pelas drogas. Para combater o problema, devemos ir além da pura repressão”. Abreu também destaca a importância dos pais ou responsáveis como aliados na guerra contra as drogas. “Sendo multiplicadores e cuidando do bem maior que são os nossos jovens, o futuro”.

A Polícia Civil trabalha com a repressão aos crimes relacionados às drogas e a investigação dos delitos, dentre eles o tráfico e a posse de entorpecentes.  Mas não para por aí. Além da parceria com projetos como o da Afro-Cena, a Polícia Civil também realiza trabalhos preventivos – palestras, reuniões, conversas com pais, alunos e instituições –, através da Divisão de Prevenção e Educação (DIPE) do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (DENARC). 

 

“Nós não somos cineastas, trabalhamos com a prevenção”


Sérgio Rosa acredita que a prevenção é a melhor saída para o problema de ordem pública das drogas. “Meu papel é prevenir. E eu tenho que respeitar o dono da boca de fumo. Sou eu que ando a pé à noite, que vou ao bairro em que há usuários de drogas. A gente tem medo, mas alguém precisa dar a cara à tapa. Se nos acomodarmos em função do medo, ninguém faz nada”.

Para ele, ninguém está imune. “A droga é um problema aqui da minha porta. Se eu não fizer a prevenção, meu filho pode ser o próximo”, ressalta. Sérgio revela que os filmes são fortes para que realmente possam servir de referência. “Quem tiver a oportunidade de usar drogas vai lembrar que o que o filme mostra pode acontecer com ele”.

Para Maico Back, o trabalho desenvolvido por eles não os faz melhores do que ninguém. “Mesmo que tenhamos esse contato direto com o submundo das drogas, vemos as coisas do lado de fora. Os que realmente conseguem sair desse mundo e ter uma vida digna, esses sim, são quem merecem nosso respeito”.

Confira o trailer de A idade da pedra


Confira o trailer de 360


 

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Reportagem publicada originalmente em "Realidade obscura" -  trabalho desenvolvido para a disciplina de Prod. em Jornalismo Online, do Curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). 2012.

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