sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Amanhã eu começo


Escreverei o livro "A arte de procrastinar". Vou começá-lo amanhã.

Enrola o que pode. Calcula o tempo que será gasto na tarefa e o tempo que ainda resta: ainda dá tempo de não fazer.
- Amanhã eu começo.
O regime.
A pesquisa.
A organização do quarto.
O regime (sai pra lá, fixação).
Whatever.
Quem procrastina adia um problema, mas não adia a preocupação. O procrastinador tem peso na consciência: sabe que é melhor aproveitar o agora, mas tem certeza de que deveria fazer o que tem de ser feito de uma vez por todas. Alivia o sentimento de culpa gratificando-se com pequenos prazeres. Troca a obrigação pelo divertimento.
- Nunca mais assisti a um filme à tarde. Faço isso, hoje, e, amanhã, começo a escrever. Dá tempo.
E corre e faz pipoca e chama o amigo e posta foto da pipoca no Instagram.
Assiste à Sessão da Tarde com o sentimento de culpa deitado numa almofada em seu colo.
- Está tudo sob controle - diz a si mesmo.
Na tentativa de sentir-se útil, deixa de lado os pequenos prazeres. Começa a riscar, da lista de procrastinação, as tarefas menos importantes:
Trocar as cordas do violão.
Lavar os discos de vinil.
Organizar a gaveta (uma só, que é para não cansar).
Ainda assim sofre. E sofre por livre e espontânea vontade. Em vez de matar um leão por dia, deixa para enfrentar dois ou três, de uma só vez. Sabe-se lá quando. Há leões que parecem grandes demais para o procrastinador matar em plenas férias, com todo esse sol.
Se conselho fosse bom (e se viesse de alguém que não procrastina - o que não é o caso de quem vos escreve), seria mais ou menos assim:
Descabele a juba do leão! Se é preciso enfrentá-lo, que a provocação seja bem feita! Não adianta esperar na moita: o leão não vai embora. Mate o bicho de uma vez.
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Nota da autora: amo leões, ok? Os de verdade e não os que deixo para matar depois.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Cinema, teatro e prevenção às drogas

Uma nova fórmula para um velho problema

Cristiane Lautert Soares


“Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Em Venâncio Aires, a célebre fórmula de Glauber Rocha para se fazer cinema tem ganhado novos ingredientes: um grupo teatral amador e o problema das drogas. É com essa mistura que a Cia. Afro-Cena, em parceria com a Back Produções, gravou dois filmes – 360 e A idade da pedra – e vem desenvolvendo projetos de prevenção às drogas para crianças e adolescentes do Rio Grande do Sul e de fora do estado.

Diretor da Cia. Afro-Cena, Sérgio Leandro da Rosa conta que o grupo teatral teve início a partir de um espetáculo montado em 2007 – Negras: um toque feminino na história. Em fevereiro de 2008, após alguns participantes da peça demonstrarem interesse em continuar fazendo teatro, o grupo começou a pensar no trabalho de forma mais organizada e profissional. “Nosso objetivo é mostrar que a cultura tem o poder de transformar as pessoas, de tocá-las”, explica Sérgio.

Sérgio, diretor da Cia. Afro-Cena e dos filmes

A parceria com Maico Back, proprietário da Back Produções, começou em 2008, com a gravação do média-metragem 360 – roteirizado e dirigido por Sérgio Rosa. A ideia de realizar projetos antidrogas veio logo depois do filme. “O média já era um trabalho que buscava deixar algo para as pessoas, mas foi no decorrer das exibições do filme que demos a devida atenção ao problema”, afirma Maico.

Nas primeiras exibições em escolas, Sérgio e Maico perceberam que o que interessava às crianças e aos adolescentes não era a produção do filme, mas o assunto nele tratado. Passaram, então, a viajar pelas cidades e a promover sessões comentadas, que consistiam na exibição dos filmes – em 2010, gravaram o A idade da pedra – seguida de um bate-papo.

Para Sérgio, as sessões comentadas e a participação das crianças e adolescentes são fundamentais para o desenvolvimento do projeto. “É muito fácil dialogar com a molecada. Procuramos usar a linguagem deles”. Maico comenta que experiências emocionantes já marcaram as sessões. “Por onde passamos vimos crianças no final da exibição, chorando, por identificarem algumas cenas do filme no seu cotidiano”. O bate-papo é conduzido a partir das reações percebidas no público. “Durante as sessões, é preciso ler o que está nas entrelinhas, na reação dos alunos”, ressalta Sérgio.

Sessão comentada em Esmeralda - RS

Integrante da Cia. Afro-Cena, Adriano da Conceição foi convidado pelo diretor Sérgio Rosa para atuar nos dois filmes. Para o ator, os filmes foram desafiadores em termos de interpretação. “Interpretei o que, infelizmente, presenciei em meu cotidiano: amigos que se envolveram com este mal, fazendo com que suas famílias pagassem o alto preço das drogas. Muitas vezes fui tomado pela emoção, pois as cenas me faziam lembrar de momentos difíceis”, revela.

 

Álcool e cigarro também são drogas


No bate-papo, após as exibições dos filmes, Sérgio procura dar atenção especial à questão do álcool. “É a droga mais letal que tem e não nos damos conta disso. A brincadeira de deixar a criança tomar a espuma da cerveja pode ser o início de um grande problema”, lembra. Ele ressalta, ainda, que o álcool está presente onde não deveria estar, e que a mensagem passada a crianças e adolescentes por meio da publicidade pode ter efeito negativo sobre estas. “Quando começamos a viajar com o 360, era período de Copa. As instituições que mais se preparam para a Copa são as escolas. E os patrocinadores são as grandes empresas de bebida. Os ídolos vendem esse tipo de droga. Só que a bebida nada tem a ver com o esporte”, reflete.

Sérgio acrescenta que dizer não às drogas é dizer não a todas as drogas – álcool e cigarro, embora legalizados, também são prejudiciais à saúde. Para ele, o exemplo é fundamental. “De nada adianta fazer uma semana de palestras, filmes, sessões de bate-papo, se o que é mostrado e debatido não for vivido”.

 

Em casa e na escola


A participação de pais e professores é vista pelos idealizadores do projeto como fundamental para a eficácia da prevenção. Contudo, o fraco engajamento de docentes de algumas escolas é observado pelo diretor e roteirista Sérgio Rosa como um aspecto negativo, capaz de desestimular as crianças e os adolescentes. Para ele, a prevenção depende da colaboração mútua entre os agentes, as escolas e os pais. “Na maioria das escolas em que vamos, enquanto estamos com os alunos, os professores não ficam participando do debate. Isso tira a credibilidade da proposta”, expõe.

Na opinião da diretora da Escola Frida Reckziegel – de Vila Palanque, interior de Venâncio Aires –, Maria Angelica Regert Scherer, a iniciativa do grupo em produzir os próprios filmes e trabalhar a prevenção é respeitável. “Droga é um assunto difícil, precisamos  nos aprofundar muito, estudando e pesquisando para termos o conhecimento necessário e transmitirmos uma mensagem verdadeiramente importante e correta”. Os filmes 360 e A idade da pedra foram apresentados na escola para professores, funcionários, alunos do ensino fundamental – do 5º ao 8º ano – e do ensino médio.

Sessão na Escola Frida Reckziegel, em Vila Palanque, Venâncio Aires

De acordo com Sérgio, estabelecer contato com os pais é uma tarefa difícil. O grupo tentou fazer sessões para a comunidade, a fim de trazê-los para a conversa, mas não obteve resultados. “A drogadição acaba sendo um assunto tabu. Os pais pensam que, se conversarem com seus filhos sobre drogas, vão deixá-los curiosos. Eles não querem trazer essa responsabilidade para si e acabam não indo buscar a informação”, avalia Sérgio.

 

Prevenção é melhor do que repressão


Embora o trabalho de prevenção às drogas seja desenvolvido há mais de quatro anos, Sérgio revela que a prevenção não oferece resultados mensuráveis. “As pessoas podem deixar de usar em função da sessão, mas nós nunca temos como saber. É claro que a gente acredita que pessoas pararam de usar por causa do projeto”. Conforme Sérgio, investir em prevenção é investir em um projeto cultural a longo prazo. “Existe tratamento e repressão, mas não adianta prender quem tem 18 anos e usa drogas e não fazer nada por quem tem 11 e pode vir a usar. É melhor prevenir do que deixar a pessoa ficar doente e depois repreender”, argumenta.

Sérgio em bate-papo com crianças e adolescentes em Vacaria – RS

Comissário da Polícia Civil de Vacaria, João Carlos Pinto de Abreu acredita que o projeto atinge o objetivo da prevenção primária às drogas. “Não é só o filme, que é belo, bem feito, com atores e atrizes amadores, mas com elevado profissionalismo, e sim todo o contexto do projeto, que finaliza com a conversa com o público, esclarece, tira dúvidas e conscientiza para a prevenção”, afirma. A idade da pedra foi levado para o município a convite do Conselho Municipal Antidrogas (COMAD) com a parceria da Polícia Civil de Vacaria, em agosto de 2011. Foram realizadas seis sessões, com média de 400 estudantes em cada uma.

Na opinião do comissário Abreu, a prevenção deveria receber mais investimento. “É um mecanismo forte para a Polícia Civil. Auxilia a diminuir a violência causada pelas drogas. Para combater o problema, devemos ir além da pura repressão”. Abreu também destaca a importância dos pais ou responsáveis como aliados na guerra contra as drogas. “Sendo multiplicadores e cuidando do bem maior que são os nossos jovens, o futuro”.

A Polícia Civil trabalha com a repressão aos crimes relacionados às drogas e a investigação dos delitos, dentre eles o tráfico e a posse de entorpecentes.  Mas não para por aí. Além da parceria com projetos como o da Afro-Cena, a Polícia Civil também realiza trabalhos preventivos – palestras, reuniões, conversas com pais, alunos e instituições –, através da Divisão de Prevenção e Educação (DIPE) do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (DENARC). 

 

“Nós não somos cineastas, trabalhamos com a prevenção”


Sérgio Rosa acredita que a prevenção é a melhor saída para o problema de ordem pública das drogas. “Meu papel é prevenir. E eu tenho que respeitar o dono da boca de fumo. Sou eu que ando a pé à noite, que vou ao bairro em que há usuários de drogas. A gente tem medo, mas alguém precisa dar a cara à tapa. Se nos acomodarmos em função do medo, ninguém faz nada”.

Para ele, ninguém está imune. “A droga é um problema aqui da minha porta. Se eu não fizer a prevenção, meu filho pode ser o próximo”, ressalta. Sérgio revela que os filmes são fortes para que realmente possam servir de referência. “Quem tiver a oportunidade de usar drogas vai lembrar que o que o filme mostra pode acontecer com ele”.

Para Maico Back, o trabalho desenvolvido por eles não os faz melhores do que ninguém. “Mesmo que tenhamos esse contato direto com o submundo das drogas, vemos as coisas do lado de fora. Os que realmente conseguem sair desse mundo e ter uma vida digna, esses sim, são quem merecem nosso respeito”.

Confira o trailer de A idade da pedra


Confira o trailer de 360


 

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Reportagem publicada originalmente em "Realidade obscura" -  trabalho desenvolvido para a disciplina de Prod. em Jornalismo Online, do Curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). 2012.

Prevenção e Cinema – 360 e A idade da pedra

Fruto da parceria entre a Cia. Afro-Cena e a Back Produções – o projeto de prevenção às drogas para crianças e adolescentes teve início em 2008, com o média-metragem 360. O filme, de 27 minutos de duração, aborda o círculo vicioso das drogas. No elenco, somente atores negros, integrantes da Companhia – 11 ao total. Com o 360, o diretor e roteirista Sérgio Rosa e o produtor Maico Back começaram a realizar sessões comentadas em escolas, congressos, fóruns, instituições, clínicas e hospitais. As sessões consistiam na exibição do filme seguida de um bate-papo, dirigido pelos dois. O projeto 360 teve duração de dois anos.

A idade da pedra - o mundo do crack na tela

A parceria rendeu outros resultados. Em 2010, foi lançado o longa-metragem A idade da pedra. Gravado com apenas uma câmera filmadora, o filme, de 102 minutos de duração, apresenta as diferentes formas pelas quais a sociedade percebe e é atingida pelo mundo das drogas – a ênfase é no crack. Mais de 180 pessoas, oriundas de várias cidades do Rio Grande do Sul, fizeram parte da produção.

Com os dois filmes, durante quatro anos, 107 escolas públicas e privadas dos Estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro receberam as sessões comentadas. Sérgio estima que mais de 23 mil pessoas tenham sido atingidas diretamente, em 231 sessões.

Como toda produção independente, a questão financeira, a dificuldade para encontrar locações e a falta de equipamentos foram alguns dos obstáculos enfrentados pelos idealizadores para a realização dos filmes. “O elenco era formado por profissionais de diversas áreas, gravávamos de madrugada, no domingo de manhã. Médicos cediam consultórios para as gravações, advogados cediam escritórios, outras pessoas cediam carros para que conseguíssemos fazer o filme”, conta Sérgio.

Com o intuito de completar a trilogia, a Cia Afro-Cena pretende fazer outro filme, no qual as deixas de A idade da Pedra terão sequência. “Abordaremos a realidade do usuário e tudo o que ele se propõe a fazer para comprar a droga”, antecipa o diretor. Para Sérgio, devido à repercussão de 360 e A idade da pedra, a próxima produção tem de surpreender. “Tem que ser profissional; melhor do que as anteriores”.

Embora o cinema seja a ferramenta escolhida para a conscientização sobre a realidade das drogas, Sérgio esclarece que os filmes são mecanismos para propagar a mensagem. “Nós não somos cineastas, trabalhamos com a prevenção”.

Leia também:
Cinema, teatro e prevenção às drogas - uma nova fórmula para um velho problema

Sobre duas rodas



Família venâncio-airense pratica ciclismo e aventura como programa de final de semana

Cristiane Lautert Soares

Nos finais de semana, o administrador de empresas Valmir Luis Schneider, 40, deixa o escritório e os compromissos para se dedicar, junto à família, a corridas de aventura. Ele integra a equipe Papaventuras, ao lado da esposa, Rosemeri Muller, 43; e da filha, Larissa, 12. Juntos, eles participam de competições realizadas em lugares remotos, quase sempre inexplorados, e aproveitam para conhecer vários lugares do Brasil – viajando e correndo. A modalidade: ciclismo. Para a navegação: mapa e bússola. Na bagagem: equipamentos, alimentos e espírito aventureiro.

                                                                                                                                                                                                 Fotos: arquivo/Valmir Schneider
Família viaja pelo Brasil para competir em corridas de aventura

As equipes das corridas de aventura são compostas por quatro integrantes – ao menos uma mulher –, mas duos e trios podem competir. A Papaventuras também corre com atletas convidados. “É muito difícil encontrar quatro pessoas com os mesmos objetivos, focadas em treinar, além, é claro, das condições financeiras, pois não possuímos patrocínio e as viagens sempre exigem gastos”, conta Valmir.

O administrador começou a participar de corridas de aventura em 2003, incentivado por Rosemeri, professora de educação física. Antes disso, praticava rallys humanos, que aconteciam em Venâncio Aires – onde mora. Ele encara o esporte como hobby de final de semana, e se considera um caso à parte. “Normalmente os corredores migram de algum outro esporte para a corrida de aventura – seja do triathlon, do ciclismo, do remo –, mas eu migrei do sedentarismo completo. Gostava de festas e adorava uma cervejinha com a galera”.

A “migração” de Valmir rendeu resultados. Para ele, o condicionamento físico e a resistência cardiorrespiratória obtiveram melhoras significativas graças à atividade física – sem impacto – proporcionada pelo ciclismo. O administrador aventureiro destaca outros aspectos, além dos benefícios à saúde: “A possibilidade de locomoção sem poluir e de visualizar de forma detalhada os locais por onde se pedala, todas as belezas naturais do interior”.

Larissa já segue os passos dos pais: ela foi apoio da equipe Papaventuras na Ecomotion/Pro 2012, prova realizada na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. A adolescente recebeu o Troféu Inspiração pela destreza e entusiasmo com que desempenhou as tarefas de apoio. Para ela, é divertido participar das corridas com a família e o lugar pouco importa: “O importante é estar correndo”. Larissa pretende continuar praticando corridas de aventura quando for adulta. “Traz bem-estar, um preparo físico muito bom. Agora que comecei, me apaixonei”.

Larissa, 12, ganhou o Troféu Inspiração, na Ecomotion/Pro 2012, em Goiás

Orgulhosa da filha, Rosemeri revela que as corridas de aventura serviram para estreitar os laços familiares. “Como usamos esse esporte como hobby de final de semana, acabamos fazendo programas em família sempre”, diz. Para ela, além de proporcionar uma vida saudável, o esporte oportuniza conhecer lugares e pessoas maravilhosas. “Nós, hoje, podemos viajar por todos os estados do Brasil sem precisar gastar nada com hospedagem, pois em cada canto temos algum amigo corredor de aventura que se sente honrado em nos receber. Isso não tem preço. Só o esporte proporciona uma relação de amizade tão ampla”. 

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Publicado originalmente no jornal-laboratório Unicom, do Curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Dezembro/2012.

Política sem cara de política



As práticas das associações de moradores em muito se assemelham à política convencional

Cristiane Lautert Soares
            
 Sábado. Oito da manhã. Anselmo Junqueira dos Santos – o Pretinho –, 62, presidente da Associação de Moradores do Rincão São José, em Taquari, aguardava o momento em que seria entrevistado. Em frente a casa, segurava a cuia de chimarrão, trazia um sorriso no rosto e vestia um blusão azul. Quando viu a câmera fotográfica, não hesitou: pediu licença para trocar de roupa.
 - Pronto, agora estou apresentável – disse, ao voltar do quarto vestindo um casaco cinza.
Satisfeito com o traje, sentado no sofá da sala, respondeu a duas, três perguntas, e convidou:
- Vamos lá na Associação? É pertinho, eu te mostro tudo. Tem ata, tudo reguladinho.

Pretinho: devidamente "apresentável"

E fomos. Lá, a conversa teve a companhia da esposa de Pretinho, Marlene Porto dos Santos, e do vice-presidente da associação, José Paulo Viana de Medeiros. Aos poucos, os três contaram sobre o funcionamento e a importância da associação de moradores para a localidade.

Bate-papo na Associação de Moradores

Para melhorar a qualidade de vida das comunidades que representam, as associações seguem estatutos próprios, nos quais, dentre outras orientações, figuram como direito dos associados “votar e ser votado” para qualquer cargo da diretoria e do conselho fiscal. No entanto, foi sem votação que Pretinho chegou ao cargo. Morador do bairro desde 1962, foi indicado diretamente pelo prefeito, há seis anos, para assumir uma associação praticamente desativada. “Ninguém queria o cargo, porque é trabalho voluntário”, explica. Ao lado da mulher, o aposentado mantém a sede da associação limpa e organizada para alugá-la a pessoas da comunidade - e de outros bairros - que queiram realizar eventos. Os valores arrecadados, bem como os de bingos, rifas, festas, bailes e jantares, são revertidos para a manutenção da sede, compra de equipamentos e o pagamento das tarifas de água e luz.

Assim como Pretinho, o vice-presidente José Paulo Viana de Medeiros, 59, e o restante da diretoria não receberam votos dos moradores para o exercício de seus cargos. “Eu não sabia de nada. Quando vi, meu nome tava lá. O Pretinho tinha me indicado. Peguei junto, porque ele se compromete de verdade”, conta. Os demais membros foram, aos poucos, sendo integrados à diretoria. “Uns a gente convidou, outros se ofereceram como voluntários”, lembra Pretinho.

Nesses seis anos, não houve eleições para a escolha de um novo representante. Nenhuma nova chapa foi formada, ninguém se candidatou à vaga. Pretinho foi ficando, ficando, e ainda não sabe quando deixará a presidência da associação. “Se eu pudesse largar amanhã, para uma equipe que fosse fazer igual ao que a gente faz, eu largaria. Mas, se é para eu largar na mão de quem não vai cuidar, continuo por mais uns dez anos”, garante.

As reuniões da associação ocorrem de dois em dois meses, mas não contam com a participação efetiva da comunidade. Nem mesmo todos os membros da diretoria comparecem. “Não aparece quase ninguém; fazemos entre nós mesmos”, revela José Paulo, o vice. E Pretinho acrescenta: “É ruim. A associação não é minha, é de todos. Se todos participassem, tudo estaria muito melhor”.

O comerciante Miguel Bittencourt de Oliveira, 48, membro do conselho fiscal da associação, procura participar das reuniões, mas não consegue ir a todas. “Participo porque tenho uma voz ativa na comunidade. Colaboro o máximo que posso, em todos os sentidos: no meu trabalho, nas doações, em qualquer coisa”, expõe. Para ele, a pouca participação da comunidade é um fator cultural. “A gente sabe que o pessoal não tem esse costume. Quem trabalha mesmo é a diretoria, principalmente o presidente”, afirma.

Imagem de Eastop - SXC.HU
"Quando se fala em associação de moradores, 
se fala de uma ação política que está fora da 
estrutura formal de representação por mandato. 
É a política da sociedade civil”. Cesar Goes
O sociólogo Cesar Goes, 49, considera as associações lugares de participação popular. “Quando se fala em associação de moradores, se fala de uma ação política que está fora da estrutura formal de representação por mandato. É a política da sociedade civil”, esclarece. Como forma de política, a associação tem o papel legitimado de traduzir o que a comunidade precisa. “Ela tem o poder de ir para a Câmara de Vereadores, por exemplo, e discutir as demandas do lugar”, ressalta o sociólogo.


COMUNIDADE ATIVA


A ação de maior destaque desenvolvida na associação é o Projeto Vida e Saúde, que visa tirar a comunidade do sedentarismo. Sob orientação de dois profissionais de Educação Física, cerca de 30 pessoas, de meia e terceira idades, participam das aulas, três vezes por semana. A maior parte da turma é feminina.

Projeto Vida e Saúde: ação visa tirar a comunidade do sedentarismo

Fabiana Kroth Pereira, 35, uma das orientadoras, pede para que os participantes se preparem e põe uma música animada para tocar. O fim de tarde de uma segunda-feira não desanima os participantes. A aula começa. Os colchonetes utilizados nas atividades foram cedidos pelo Departamento de Assistência Social da Prefeitura de Taquari; já outros materiais têm o toque de criatividade dos participantes: garrafas PET de 600 ml cheias de areia tornam-se pesos, cabos de vassoura auxiliam os exercícios, steps são improvisados com jornal.

Após as atividades, um papo descontraído com os participantes evidencia a importância do projeto. 
- Eu sou a mais novinha do grupo! - garante Vilma Goethel Bitencourt.
- E quantos anos a senhorita tem? - pergunto.
- Oitenta! – responde, com orgulho.
De acordo com Vilma, moradora do bairro há 60 anos, as atividades desenvolvidas no projeto já deram resultado. “Fiquei mais forte. Andava mal da coluna, não podia caminhar. Hoje, já faço quase tudo”, conta, satisfeita.

Vilma Goethel: animação e movimento aos 80 anos

Para Marlene Porto dos Santos, 56, a atividade física vem acrescida de um benefício: “Entrosa as pessoas, todo mundo é muito amigo, apegado”. Zélia Rocha Ventura, 59, moradora da localidade Beira do Rio, concorda. Na falta de uma associação de moradores onde reside, e de projetos como o desenvolvido no Rincão São José, ela participa – desde abril – das atividades físicas nos três dias da semana. “Vindo aqui, a gente consegue se integrar com outra comunidade e ainda se exercita. Sinto falta disso onde moro”, observa. Eliane Terezinha Rocha, 59, também da Beira do Rio, já se sente parte da comunidade. “Fomos muito bem recebidos aqui”, fala, entre sorrisos, aos demais integrantes da roda de conversa.

Além do Projeto Vida e Saúde, outra ação que envolve atividades físicas pode chegar ao bairro, em breve. Pretinho solicitou, junto a Câmara de Vereadores, verba municipal para a construção de uma pista de atletismo, no pátio da associação. A ideia é proporcionar um espaço no qual a comunidade possa fazer caminhadas.

Depois que todos os participantes do projeto se retiram, Pretinho responde à pergunta final: 
- Qual a importância da associação na tua vida e na vida dessas pessoas?
- As pessoas merecem. É importante chamar mais para perto, chamar o pessoal para discutir o que precisa, ajudar a quem precisa. Isso é importante. A união.
- Isso muda tudo - concordo.
Pretinho para e pensa. Em seguida, fala como se explicasse a si mesmo o motivo pelo qual abraça a causa. Marca, com as mãos, o fim de cada oração.
- Muda. Eu amo isso aqui. Faço por amor à camiseta. Eu gosto. É tão gratificante que parece que tenho 15 anos.

Assista:



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Reportagem publicada originalmente no jornal-laboratório Unicom, do Curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Tema: Qual a cara da política? Novembro/2012.

Entrevista com Elenor José Schneider

Sim, querido leitor, estou te pegando pelos cabelos colarinho e dizendo:
- Excluo o blog se a entrevista com o professor Elenor José Schneider, abaixo, não for boa.

É preciso esclarecer: o programa foi desenvolvido para a disciplina de Produção em Radiojornalismo II (Unisc), sob orientação da professora Veridiana Pivetta de Mello, no 2º semestre de 2012.  Então, queridões, nada de analisar o desempenho dos alunos, ok? Estávamos aprendendo a lidar com um conjunto de fatores estressantes: a pressão, os microfones, a g-g-g-ga-gagueira, o cara da técnica, o "não pode errar". Portanto, foquem no que o mestre tem a dizer, para que eu não tenha que excluir o blog. Obrigada. De nada.

Fica o registro (e tem muuuito mais):
"Uma boa aula só existe quando há um professor que quer dar uma boa aula 
e quando há alunos que querem participar dessa aula".
"Os poetas são capazes de fazer sínteses que a gente é incapaz de fazer".

Ficha técnica:
Apresentação: Juliana Bencke e Josiane Goetze
Edição: Cristiane Lautert e Letícia Wacholz
Técnica: Gabriel Steindorff
Trilha do poema: Devendra's Butterfly, de Guilherme Zapata

Caso não toque, clica aqui: Entrevista com Elenor Schneider 

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