terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013

Meus balanços de final de ano tendem à repetição. Sim, porque sempre compro (ganho) vinis, sempre tomo banhos de chuva memoráveis, sempre leio (ganho) muitos livros, sempre reclamo de quase tudo. Sou previsível. Por acreditar que as coisas se repetiam demais, não fiz uma retrospectiva em 2012. Ainda que repleto da rotina que tanto amo, 2013 teve lá suas novidades: o teclado (quem lembra?) foi, finalmente, consertado. Obra de caridade de uma amiga. Hoje, posso tocar minhas músicas favoritas, embora fique devendo o som de três notas, em duas oitavas diferentes (seria esperar demais que, depois de tanto tempo, ele ficasse 'bom' por completo, não?).

 

Vi cristão compartilhar horóscopo, vi pastor vender bênçãos, dei de cara com uma imensidão de erros gramaticais no Facebook. Vi os ativistas de sofá irem para a rua, "a maior arquibancada do Brasil". Passei quatro meses estudando, procrastinando e escrevendo a monografia. Chorei. Pensei que não daria conta. Passei outros quatro meses procrastinando, planejando e executando o projeto experimental. Criei, com a melhor parceira que o curso de jornalismo poderia me oferecer, um site para o 2º jornal mais antigo do RS ainda em circulação, O Taquaryense (Valeu, Ju!).

Gente honesta no Congresso - Imagem de klassmannlucas

Recusei ofertas de emprego, chorei com a morte de dois amigos (a vida anda meio previsível neste quesito). Certifiquei-me de que um certificado não faz alguém ser melhor do que outro. Reclamei do frio, fui xingada por gostar de calor (haters, sempre eles), fiquei feia nas fotos de toga, detestei a maquiagem. Salvei marimbondos que estavam se afogando na piscina, fiz desenhos péssimos com giz de cera, dei água para passarinhos. Tive aulas chatíssimas. Tive aulas maravilhosas. Conheci o som da banda Rival Sons. E o do Keaton Henson (nada de "Mmmbop". É Henson, não Hanson). Ouvi (e gravei) meu pai cantar no escuro, num momento mágico e deliciosamente desafinado. Fui num concerto de rock (com orquestra e tudo), comi bolinho de chuva em dia que choveu e em dia que fez sol.


Foto: Cristiane Lautert

Entrei em crise, várias vezes: existencial, profissional, de sinusite. Saí de todas elas. Ensinei minha mãe a usar o Facebook e o meu pai a ver todos os vídeos que quiser, no Youtube. Voltei a falar com um amigo querido. Encontrei outro amigo que não via nem ouvia há muitos anos. Senti falta do Zé. Fiz lacinhos de fita nos convites de formatura (caridade de outra amiga). Troquei cartas com gente maravilhosa. Escrevi algumas na máquina de datilografar. Esqueci de contar várias coisas, mas isso já era de se esperar.

Foto: Cristiane Lautert




segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Pele

Abri vários sorrisos.
Desamassei minha cara fechada,
Concentrada demais.
 
Por isso as rugas.

Foto de mamjakty

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Diálogos contemporâneos

- Tu e o meu celular possuem algo em comum.
- Somos modernos?
- Não têm crédito.


 - Tu jogas paciência?
- Sim, quase todo dia.
- É mesmo?
- No lixo.



- Estou numa fase difícil. 
- O que houve? 
- No Candy Crush, digo. 



sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Os corações dos donos dos guarda-chuvas

Imagem de my-walls.org

Quando Maria se foi, pareceu mentira, sonho ruim, brincadeira de mau gosto.
A notícia entrou pelos ouvidos e encontrou-se com a incredulidade. Deu algumas voltas dentro da cabeça e saiu pela boca, em forma de pergunta, num volume que despertou a atenção dos demais passageiros do ônibus.

- Quê?

Era difícil demais acreditar naquilo. A Maria. A mulher que tirou foto comigo quando eu tinha dois anos. Que tinha guardado o convite do meu aniversário de 26 anos atrás. Que tomava chimarrão todo santo dia. A esposa do Nelson. A vizinha que recolhia as roupas do nosso varal quando chovia e não estávamos em casa; que as trazia dobradas, mais tarde. A Tuca, que mantinha as unhas dos pés impecáveis. Que se arrumava para sair e perguntava se estava bonita. Que sempre tinha doce na geladeira. Que era diabética. A Maria, de nome comum, mas tão diferente. A Maria Valdeni.

Jovem demais. Como assim alguém sai dessa vida sem ter envelhecido o suficiente? Sem ter passado pelos 70, 80 anos? Como alguém parte sem ter cabelos brancos e sem assumir aquele ar de sabedoria e doçura que a idade impõe até aos mais rabugentos?

Próxima demais. Como abrir a janela e não vê-la? Como passar em frente à soleira da porta, na qual ela costumava se sentar, e não esperar encontrá-la? Como assim ela não vai estar presente na minha formatura? E as tardes de chimarrão, agora, como ficam?

No dia da despedida, o céu chorou chuva. Era tanta a tristeza que o dia pintou o cenário de cinza. Os guarda-chuvas se espremiam em meio aos túmulos. Seus donos queriam dar o último adeus. Os corações dos donos dos guarda-chuvas também se espremiam. Chovia sobre todos. Uma chuva pesada e fria; implacável. Os olhos também choviam. Uma chuva leve e quente; inconsolável.




sexta-feira, 16 de agosto de 2013

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Velharia

Estou envelhecendo - todo mundo está -
 e preferindo 
os silêncios, 
os meus discos, 
alguns livros, 
a calma, a cama e o chá.

Imagem carinhosamente cedida por Angélica Viana


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Quem namora



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Texto publicado no Caderno Especial do Dia dos Namorados do jornal O Açoriano.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Escape

Ela queria escrever, mas as palavras fugiam das pontas dos dedos.
Sem entender o que acontecia, desistiu.
As palavras - ela compreendeu mais tarde - queriam sair pelos olhos. 
E rolar face abaixo.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Mais música - Rival Sons

Poucas vezes escrevi sobre música no blog. Tenho um certo ciúme das bandas que descubro (como se ninguém mais as conhecesse) e gosto de guardá-las para mim. Quando decido revelar minhas descobertas - para os amigos mais chegados, normalmente -, faço com que eles passem por um verdadeiro ritual: são obrigados a ouvir sobre a banda, sobre os integrantes, lêem entrevistas e recebem os links dos melhores vídeos. Tudo por minha conta, óbvio. Depois de apresentar a banda aos queridões, apresento para o resto do meu mundo, nas redes sociais. E é claro que a maioria não dá bola. 

Mas quando a banda é boa, boa mesmo, não dá tempo de fazer isso. Descubro e largo no mundo, assim, direto. Foi exatamente isso que aconteceu quando ouvi a Rival Sons pela primeira vez. Os caras fazem um blues-rock de altíssima qualidade. Fui transportada para outra época, reconheci as influências e corri para as redes sociais - o blog, que exige mais do que uma simples frase e um link, ficou por último.

A banda gravou quatro álbuns (um é EP): 

Before the fire, de 2009

1. Tell me Something
2. Lucky Girl
3. Memphis Sun
4. Angel
5. Pocketful of Stones
6. The Man Who Wasn’t There
7. Pleasant Return
8. On my Way
9. I Want More
10. Flames of Lanka
11. Nanda-Nandana





Rival Sons EP, de 2011



1. Get What’s Coming
2. Torture
3. Radio
4. Sacred Tongue
5. Sleepwalker
6. Soul









Pressure and time, de 2011.

1. All over the Road
2. Young Love
3. Pressure and Time
4. Only One
5. Get Mine
6. Burn Down Los Angeles
7. Save Me
8. Gypsy Heart
9. White Noise
10. Face of Light





Head down, de 2012.

1. Keep On Swinging
2. Wild Animal
3. You Want To
4. Until the Sun Comes
5. Run from Revelation
6. Jordan
7. All the Way
8. The Heist
9. Three Fingers
10. Nava
11. Manifest Destiny Pt. 1
12. Manifest Destiny Pt. 2
13. True


Vamos ao que interessa? Os vídeos valem a pena, garanto.
Sobre o vocalista: quem pensa que canta bem deveria ouvir o Buchanan primeiro. Depois, deveria repensar e, quem sabe, desistir.









sexta-feira, 10 de maio de 2013

Prece


As mãos envelhecem depressa, entregam a idade. 
Que envelheçam, então, estendidas a alguém; 
que envelheçam tendo outras mãos para segurar.

Foto de Julia Freeman-Woolpert



quarta-feira, 8 de maio de 2013

A vida é linda, com todo o pacote

E tudo bem se as pessoas se afastaram. A gente as carrega no peito mesmo assim. Porque isso é nosso. Só nosso. É a vida na íntegra. Esquecê-las é esquecer do que a nossa história conta. Algumas pessoas a gente ama para sempre. Mesmo que doa.

A vida é linda, com todo o pacote.



Acordei pensando nisso e ouvindo um cara que faz música de um jeito maravilhoso: Keaton Henson. De um jeito intimista, de um jeito triste, de um jeito só dele, ele consegue colocar em suas letras e melodias aquilo que a gente considera só nosso: a tristeza, a solidão, o coração partido. Difícil não se identificar ou não adotar uma de suas músicas como trilha sonora para pensar na vida. A trilha de hoje é You don't know how luck you are, do álbum Dear. Quanto ao clipe: simples e sensacional.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O que sobra com o que falta


É comecinho de noite. O chimarrão passa de mão em mão. Pai, mãe e filha, na cozinha, assistem ao noticiário na “caixa mágica”. A cozinha é o ponto de encontro da família que, na maioria das noites, fica incompleta – a filha estuda longe e chega tarde. A janela arredondada está aberta, mas ninguém presta atenção na noite que chega. Nenhum olhar é dirigido a ela. A família está reunida, mas o momento, raro, passa despercebido. Estão todos ocupados demais. Falar interromperia a lógica da coisa toda. O telejornal exige atenção. Não dá para fazer outra coisa ao mesmo tempo. Tirou o olho da tela, perdeu.

Uma queda de luz escurece a casa e cala a TV. As três bocas, finalmente, podem falar. O trio permanece sentado. A janela assume seu lugar no ambiente. A luz da noite que recém começa entra, mas não ilumina o suficiente. As memórias vão chegando devagar.

- Antigamente era assim. Lampião, vela, o barulho da noite – lembra o pai.
- As pessoas iam dormir cedo – emenda a mãe.
- É gostoso isso. Dá para conversar – observa a filha.

Os três aproveitam o momento por alguns instantes, em silêncio, até que o pai é tomado por uma súbita vontade de cantar. Mãe e filha são pegas de surpresa. Ele canta alto, se diverte, ignora as risadas das duas, varia o repertório de músicas antigas.

- Mas isso até é coisa pra se filmar e colocar na internet – sugere a mãe.
- Vou pegar a câmera!

O vídeo, é claro, está escuro, mas ficou divertido:


Memórias. Música. Escuro. Risadas. É o que sobra quando a luz falta.

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O cantor inspiradíssimo do vídeo é o meu pai, Sílvio Felipe Soares.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Amanhã eu começo


Escreverei o livro "A arte de procrastinar". Vou começá-lo amanhã.

Enrola o que pode. Calcula o tempo que será gasto na tarefa e o tempo que ainda resta: ainda dá tempo de não fazer.
- Amanhã eu começo.
O regime.
A pesquisa.
A organização do quarto.
O regime (sai pra lá, fixação).
Whatever.
Quem procrastina adia um problema, mas não adia a preocupação. O procrastinador tem peso na consciência: sabe que é melhor aproveitar o agora, mas tem certeza de que deveria fazer o que tem de ser feito de uma vez por todas. Alivia o sentimento de culpa gratificando-se com pequenos prazeres. Troca a obrigação pelo divertimento.
- Nunca mais assisti a um filme à tarde. Faço isso, hoje, e, amanhã, começo a escrever. Dá tempo.
E corre e faz pipoca e chama o amigo e posta foto da pipoca no Instagram.
Assiste à Sessão da Tarde com o sentimento de culpa deitado numa almofada em seu colo.
- Está tudo sob controle - diz a si mesmo.
Na tentativa de sentir-se útil, deixa de lado os pequenos prazeres. Começa a riscar, da lista de procrastinação, as tarefas menos importantes:
Trocar as cordas do violão.
Lavar os discos de vinil.
Organizar a gaveta (uma só, que é para não cansar).
Ainda assim sofre. E sofre por livre e espontânea vontade. Em vez de matar um leão por dia, deixa para enfrentar dois ou três, de uma só vez. Sabe-se lá quando. Há leões que parecem grandes demais para o procrastinador matar em plenas férias, com todo esse sol.
Se conselho fosse bom (e se viesse de alguém que não procrastina - o que não é o caso de quem vos escreve), seria mais ou menos assim:
Descabele a juba do leão! Se é preciso enfrentá-lo, que a provocação seja bem feita! Não adianta esperar na moita: o leão não vai embora. Mate o bicho de uma vez.
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Nota da autora: amo leões, ok? Os de verdade e não os que deixo para matar depois.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Entrevista com Elenor José Schneider

Sim, querido leitor, estou te pegando pelos cabelos colarinho e dizendo:
- Excluo o blog se a entrevista com o professor Elenor José Schneider, abaixo, não for boa.

É preciso esclarecer: o programa foi desenvolvido para a disciplina de Produção em Radiojornalismo II (Unisc), sob orientação da professora Veridiana Pivetta de Mello, no 2º semestre de 2012.  Então, queridões, nada de analisar o desempenho dos alunos, ok? Estávamos aprendendo a lidar com um conjunto de fatores estressantes: a pressão, os microfones, a g-g-g-ga-gagueira, o cara da técnica, o "não pode errar". Portanto, foquem no que o mestre tem a dizer, para que eu não tenha que excluir o blog. Obrigada. De nada.

Fica o registro (e tem muuuito mais):
"Uma boa aula só existe quando há um professor que quer dar uma boa aula 
e quando há alunos que querem participar dessa aula".
"Os poetas são capazes de fazer sínteses que a gente é incapaz de fazer".

Ficha técnica:
Apresentação: Juliana Bencke e Josiane Goetze
Edição: Cristiane Lautert e Letícia Wacholz
Técnica: Gabriel Steindorff
Trilha do poema: Devendra's Butterfly, de Guilherme Zapata

Caso não toque, clica aqui: Entrevista com Elenor Schneider 

Tu também podes te interessar por: Algumas "letras" sobre um mestre

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Divisão

Eu devia dividir o sentimento
ou sentir menos,
ofertar-te uma parte, pelo menos.

É muita coisa pra trazer no peito;
a metade eu te ofereço.
carrega um pouco, abranda o peso.

É no abraço que te passo o fardo
deste amor pesado que carrego em mim.
O abraço é cálculo dos mais difíceis,
que já me explicaram, mas nunca entendi.

Entre o dividendo e o quociente,
o divisor é consciente do amor guardado aqui?



domingo, 13 de janeiro de 2013

Cresce número de assassinatos em Taquari

Embora Taquari seja uma pacata cidade do interior, não é preciso andar muito para dar de cara com a cena de um crime. Assassinatos acontecem em várias ruas, todos os dias. Tornaram-se corriqueiros. O curioso é que os crimes são sempre contra a mesma vítima.

- Mas como assim? Não se pode ser assassinado mais de uma vez, Cristiane!

O Português pode. E não me refiro ao português da padaria, que fique claro.

Numa caminhada de aproximadamente uma hora e meia, fomos testemunhas (eu e o Isma) de vários assassinatos.

AVISO: IMAGENS CHOCANTES!

Ah, o acento indicativo de crase sempre se metendo onde não é chamado!




Lembrem-se: humildade é tudo, desde que não venha com acento agudo, ok?

Humildade sempre. De qualquer jeito.


Sempre tive a-que-la vontade quase incontrolável de tascar um acento circunflexo na palavra melância melancia. Sigo resistindo bravamente, mas a tentação foi mais forte para o cara que bolou a placa abaixo. Antes fosse só isso, mas tem mais. Bora concordar essas pessoas?

Compre - Venda - Troque - Financie

ou

Compra - Vende - Troca - Financia

Finância, parente da melância, conhece?


Bebeu água? Tá com sede? Olha, olha, olha, olha a água minnral. Água minnral ♫




Rua nova em Taquari! Corram para as colinas o Google Maps!




Por fim, uma placa pela qual garrei amô. Atenção para o "crente da igreja".

Tudo bonitinho até colocarem o "à vista" sem acento indicativo de crase.


Entenda:
As fotos são ruins porque o celular não ajuda.
A Rodovia Aleixo Rocha da Silva encabeça o ranking dos assassinatos.
Os números de telefone foram escondidos mal e porcamente.