quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Microconto



Fiquei encantada com o microconto (chamemos assim) que minha amiga e colega de curso, Juliana Bencke, escreveu. Reproduzo as linhas:
Quando o telefone tocou, ela não correu para atender. Pé por pé, atravessou a sala calmamente. Quando o aparelho tocou pela terceira vez, ainda faltavam dois metros até a escrivaninha, e ela aproveitou para agarrar o gato que cruzava a sala naquele momento, de olho no prato de macarrão que ela havia deixado em cima da mesa da cozinha. Na quinta chamada, alcançou o fone. Apesar do nervosismo do que estava no outro lado da linha, conversou com naturalidade. Sem largar o gato, puxou uma cadeira que estava por perto e sentou. Não que tivesse se assustado. Pelo contrário, continuou alisando o pelo do bichano com cuidado e olhando para o porta-retrato acomodado em cima da escrivaninha como se, assim, pudesse compreender certas coisas. Não se preocupou em colocar o fone de volta no gancho. Deitou, com as pernas encolhidas, no sofá de dois lugares e chorou por meia hora. Almoçou quieta a comida fria, vestiu o único vestido preto – usado em todos os funerais – e saiu. 
Juliana Bencke

Um comentário:

Josi disse...

Que lindooo! Quero mais! ;)