sábado, 11 de agosto de 2012

Telejornalismo e espetáculo - uma linha tênue


Imagem de Jay Lopez
sxc.hu
Em Existe vida fora da TV?, capítulo do livro Comunicação e jornalismo: a saga dos cães perdidos (2000), Ciro Marcondes Filho aborda a distinção dos termos “essência” e “existência”, buscada pelos homens desde a Antiguidade. Para ele, a confirmação da existência vai além do “penso, logo existo” de Descartes: se dá pelo posicionamento ocupado na família, na comunidade e no mundo. Segundo Marcondes Filho, a prova da existência atual é a tecnologia. Para serem considerados existentes, todos os fatos jornalísticos precisam passar pela TV.

O autor aponta o telejornal como a síntese do formato televisivo. Com as evoluções tecnológicas, o telejornalismo - no princípio, variante do jornalismo impresso -, passou a ter características próprias. Desse modo, na opinião crítica de Marcondes Filho, a leitura de notícias transformou-se em show televisivo. Ele enumera paradigmas próprios do telejornalismo, surgidos no final do século XX, e reflete sobre a influência que exercem no telejornalismo atual. Dentre eles, está o modelo esportivo de noticiário, no qual as notícias são apresentadas como um jogo de futebol. As imagens, por si só, transmitem a mensagem, sem que haja a necessidade de explicar o que o telespectador vê.

Outro modelo abordado é a lógica da velocidade, que diz respeito tanto à rapidez com que uma emissora apresenta um acontecimento ao público quanto ao ritmo em que as notícias são apresentadas. Desse modo, classifica-se o que é conteúdo de qualidade não pela relevância que terá na vida das pessoas, mas pela possibilidade de ser apresentado antes dos demais. O critério, perigoso para a qualidade da informação, torna as notícias superficiais e transforma jornalistas em trabalhadores de linhas de montagem industrial, visto que precisam tomar decisões instantâneas, separar o material imediatamente e triar informações básicas. A rapidez impede a reflexão daquele que produz a notícia e do que a consome.

A preferência do “ao vivo” é outro paradigma apontado pelo autor. Para alguns jornalistas, transmitir acontecimentos ao vivo implica “pureza plena de uma transmissão”.  No entanto, o “ao vivo” não está isento da escolha do ângulo pelos cinegrafistas, nem da decisão de noticiar um fato em detrimento de outro. Para Marcondes Filho, o que se vê no “ao vivo” é resultado de muitas escolhas e da interferência de muita gente; é uma produção e não o fato em si.

Na substituição da verdade pela emoção, outro paradigma, o telejornal tem de provocar emoções. Se o telespectador sente aquela emoção como verdadeira, também crê que a informação é verdadeira, sem levar em conta que as emoções são manipuláveis. Marcondes Filho também critica a popularização da televisão, na qual nenhuma mensagem complexa tem vez. Ele explica que isso ocorre porque não se tem controle sobre a memória e o conhecimento dos telespectadores a respeito de determinado assunto e, portanto, é preciso começar do zero a cada vez que se conta uma notícia.

O autor aponta a televisão como uma máquina incessante de fazer o nada: ela produz imensas quantidades de material – montagens, roupagens, cenários – que não serão gravadas na memória do telespectador. Para ele, isso se dá porque o que interessa é a emoção do momento, a sensação imediata. O ato de pensar vai de encontro a isso; daí o expurgo da reflexão, último paradigma. Segundo ele, para a grande maioria dos fãs da TV, não há espaço para discussões sobre causas e assuntos mais profundos.

Marcondes Filho faz um apanhado de vários autores sobre as questões abordadas no capítulo, com o intuito de respaldar suas argumentações. A visão pessimista do autor em relação ao jornalismo televisivo serve, no mínimo, para deixar os comunicadores atentos ao trabalho que têm realizado. Trabalhar em meio a ditadura do tempo, transmitir emoção e ser simples - sem parecer simplório -, são alguns dos desafios enfrentados diariamente pelos profissionais da comunicação.

Mesmo os estudantes, em suas primeiras reportagens nos trabalhos acadêmicos, demonstram preocupação em construir uma linguagem que surta efeito: focar os olhos marejados de lágrimas, flagrar a ansiedade do entrevistado, explícita no mover das mãos, por exemplo. No entanto, é preciso mais. Se só a TV comprova, de fato, que os acontecimentos verdadeiramente ocorreram; se só ela prova a existência, é necessário refletir sobre o modo de transmitir “a prova”. As roupagens e linguagens do fazer jornalístico não são um espetáculo à parte, mas ferramentas para levar conteúdo de qualidade ao telespectador.

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