sábado, 11 de agosto de 2012

Menos técnica, mais conversa, por favor


Em Entrevista: o diálogo possível (1986), a jornalista Cremilda de Araújo Medina aponta a entrevista como um braço da comunicação humana que vai além da técnica de fazer perguntas e obter respostas. Segundo a autora, o diálogo é o modo mais eficaz de transmitir autenticidade e gerar identificação entre o emissor, o repórter e o receptor. Entrevistadores com perguntas e respostas preestabelecidas, que apenas conduzem o entrevistado a resultados já esperados, são o maior obstáculo para que, de fato, o diálogo seja estabelecido. Mais do que impor questionários e cumprir a pauta, é preciso humanizar a entrevista, interagir, realizar o “diálogo possível”. 

Para Medina, a entrevista pode ser classificada em três troncos: recolher os fatos, informar e motivar. Ela cita Edgar Morin, para quem o repórter deve assumir uma postura simpática e tranquilizadora, visto que o entrevistado reage de acordo com o clima da entrevista. Além disso, a situação social, histórica, e a personalidade do entrevistado também influenciam no resultado dessa interação. Ainda baseada em Morin, a autora destaca a entrevista como tentativas de compreensão ou de espetacularização. Na primeira, busca-se entender os conceitos, os valores e a história do entrevistado; na segunda, o pitoresco, o sensacionalismo e a ironia são enfatizados.

Medina chama a atenção para a necessidade de preparação do entrevistador. Ele deve munir-se com informações sobre o tema, recorrer a arquivos de referência e saber como o entrevistado se comporta numa entrevista, a fim de encaminhá-la com agilidade e obter aproveitamento satisfatório da pauta. De acordo com a jornalista, o importante é a curiosidade da audiência ser saciada, e não a do repórter. As fontes também recebem atenção especial da autora: para ela, os comunicadores sempre tendem a recorrer aos mesmos grupos de fontes oficiais. Na busca pelo diálogo possível, deve-se ouvir todas as vozes e descobrir novos entrevistados qualificados.

Embora o repórter tenha que ser objetivo, Medina afirma que não há como escapar da subjetividade do entrevistado nem de sua própria subjetividade. Após a entrevista, ao retornar à redação, ele precisa decidir, juntamente com o editor, se usa o depoimento coletado para escrever uma notícia - estruturada como a conhecemos -, ou se faz um aprofundamento e relata tudo o que aconteceu. No impresso, essa opção exige mais espaço; no rádio e na televisão, mais tempo no ar. Na hora de dar forma à entrevista – a autora dirige-se ao impresso em toda a obra –, pode-se fugir do padrão convencional das aspas e travessões. Ao transcrever o diálogo, o entrevistador decide qual será a estrutura da matéria – linear, fragmentada, alinear – e qual foco a narrativa terá.

A autora ressalta a importância de compreender o modo de ser e de falar do entrevistado. As emoções devem estar presentes na narrativa, nas entrelinhas do diálogo, no silêncio, no ritmo. Ela enumera alguns ruídos que dificultam a interpretação da mensagem e tornam o texto pouco fluente e claro: frases extensas, mal estruturadas, intercalações em excesso e falha nos tempos verbais. Embora considere importantes as regras presentes em manuais de estilo, Medina defende o predomínio da preocupação com o conteúdo humano, da naturalidade e da “magia de uma boa história”.  

Entrevista, o diálogo possível é um texto de fácil compreensão, embora alguns capítulos repitam ideias que poderiam estar agrupadas. Medina desenvolve o texto em ordem linear: a preparação, a entrevista, a volta à redação e a montagem da matéria. Dentre os conceitos mais importantes do livro, a humanização da entrevista merece destaque. Nas entrevistas que já fiz, percebi o quanto é importante – e nada fácil – deixar o entrevistado à vontade. O diálogo verdadeiro consiste em desarmar o outro e a si mesmo, não apenas porque é preciso fazê-lo – para obter as melhores informações –, mas porque há real interesse no que a fonte tem a dizer.

O preparo do repórter antes da entrevista – a busca por informações sobre o tema e o entrevistado – e o modo como o texto será editado também são ensinamentos valiosos do livro. Mais do que comprometimento e talento, a sensibilidade é fundamental para contar a história do modo que ela merece ser contada.

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