segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Regresso



Imagem de H Rotgers

Deixei meu coração naquela rua.
Deve estar em algum buraco 
daquela estrada de chão.
Deve estar na cor das casas,
nos cachorros no portão.
Deve estar no velho número
daquela antiga casa, 
doce e amarga prisão.

Deixei meu coração naquela rua.
Deve estar, ainda, batendo entre as tuas mãos.
Preso, indefeso, me esperando.
...
Desde que o deixei,
o tempo, a vida, o pensamento,
o olhar e a lágrima estão suspensos.
Talvez eu volte para buscá-lo, um dia.
Talvez eu nunca tenho saído de lá.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Protesto


Imagem de abcdz2000

Aquela frase boa - o começo de uma história, talvez - pipoca na mente, do nada.
- Não preciso anotar - penso, sabendo que sim, preciso desesperadamente, porque vou esquecer (como sempre faço).
A frase corre, pula, faz protesto, grita, traz outras para a manifestação, me obriga a sair da cama, acender a luz e procurar por uma caneta.
Anoto-a. Anoto as demais - essas escandalosas! 
Espero.
O protesto acaba. O silêncio chega.
Espero. Nada.
- Devem ter ido embora.
Apago a luz. Deito-me. Fecho os olhos e ouço nova algazarra: voltam elas, trazendo mais manifestantes pela mão. Não tem jeito: no mundo das ideias, quem tem sono precisa sonhar acordado. E escrevendo.

Conselho


Corrige-te, coração corroído. 
Corre.

Imagem de Alex Bruda

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Pequena artista

Andava pela estrada de chão 
e catava pedrinhas, que, 
mais tarde, 
coladas em uma folha de ofício, 
formariam a rua de uma "obra de arte".

Imagem retirada daqui

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Luta perdida

Vencedor do Prêmio Jabuti, em 2005
Viúvas da terra: morte e impunidade nos rincões do Brasil (2004), do jornalista Klester Cavalcanti, narra a história de mulheres que perderam maridos envolvidos na questão agrária, no sul e sudeste do Pará. Com 183 páginas, o livro publicado pela editora Planeta rendeu ao escritor o Prêmio Jabuti na categoria Livro-reportagem, em 2005. A matéria que deu origem à obra, publicada na revista Terra, em novembro de 2002, foi finalista do Natali Prize, prêmio considerado o mais importante do mundo na área de Jornalismo de Direitos Humanos.

Viúvas da Terra é resultado de cinco anos de pesquisa sobre a violência que ocorre no meio agrário brasileiro. A lista de entrevistados pelo escritor é extensa: mais de 70 pessoas, entre parentes de vítimas, sobreviventes de massacres, advogados, policiais, sociólogos e acusados.  Para contar os casos narrados no livro, mais de três mil páginas de inquéritos policiais e de processos judiciais foram analisadas. Um árduo trabalho com o intuito de trazer à tona a realidade de agricultores submissos a fazendeiros que fazem as próprias leis.

Os personagens da obra estão diretamente envolvidos na luta pela reforma agrária. De um lado, trabalhadores rurais e sindicalistas, que sonham em conquistar um pedaço de terra para sustentar a família; de outro, fazendeiros, madeireiros, políticos e empresários, prontos para responder de forma truculenta a quem ousar contrariar suas ordens. Diferentes histórias são contadas, mas fica evidente o que elas possuem em comum: as viúvas enfrentam a falta de condições para manter a casa e, impotentes, assistem à impunidade dos crimes que desestruturaram suas famílias.

Mais do que evidente, o descaso da Justiça em relação aos homicídios é gritante. As estatísticas denunciam a impunidade: dos 1.373 assassinatos que se deram envolvendo disputas agrárias no país, apenas 122 foram a julgamento, no período de 1985 a 2003. Houve nove condenações e, até a conclusão do livro, nenhuma prisão. Nos seis casos apresentados pelo autor, por mais consistentes que fossem as evidências, predominaram a desobediência à lei e o retardamento dos processos judiciais.

Lições

O livro traz preciosas lições para os profissionais da comunicação. A ideia de investigar e publicar a realidade da questão agrária surgiu com a observação de notas relativas aos assassinatos de agricultores, nas páginas dos jornais do Pará. Daí a importância de os comunicadores estarem atentos ao que é recorrente na mídia, e, portanto, encarado como habitual e não merecedor de atenção.  Viúvas da terra denuncia, literalmente, não ao poder judiciário o que já é de seu conhecimento, mas aos brasileiros - alheios à causa - a realidade timidamente apresentada nos jornais diários.

Além disso, o livro revela os nomes verdadeiros dos advogados, juízes, desembargadores e promotores, que cumpriram ou não sua função. Nomes fictícios deixariam a credibilidade do trabalho à mercê de especulações. Para Cavalcanti, "o jornalismo tem que ser comprovável". As lições continuam: as poucas, mas densas páginas de Viúvas da terra apresentam forte carga emocional. Na narrativa, o jornalista faz uso de recursos literários e de observações minuciosas para montar o cenário na mente do leitor – prova de que apuro literário e sensibilidade, quando bem dosados, não descaracterizam o estilo jornalístico.

O sopro de realidade proporcionado pela leitura da obra é um alerta à sociedade, aos comunicadores e à Justiça. A reforma agrária, pouco discutida nos dias atuais, é questão não resolvida no Brasil. É luta perdida para milhares de agricultores. A função do jornalista é apontar o problema e evidenciá-lo a ponto de abrir os olhos da sociedade, e nisso, Klester Cavalcanti não deixa a desejar. Viúvas da terra cumpre, com extrema competência, o seu papel: revela, perturba, revolta e comove.