terça-feira, 17 de abril de 2012

Maria

Rodoviárias são reservatórios de pessoas interessantes.
Estão repletas de gente que espera o ônibus.
Gente que espera que alguém as encontre para que possam falar.
Gente que espera encontrar alguém que tenha algo interessante a dizer. Enquadro-me nesta opção.

Não sei o sobrenome da Maria.
Nos 20 primeiros minutos de conversa, enquanto esperávamos o ônibus, éramos completamente anônimas.
O anonimato nos torna cúmplices. A troca é inevitável. 
O estranho é uma fonte.

- Qual é mesmo o teu nome? – perguntou-me depois de relatar uma parte dos seus problemas.
- Cristiane.
- Cristiane! Não acredito! É o nome da minha filha mais velha! - comemorou, enquanto beijava minha mão direita. 

O estranho é mãe.

- E o teu nome? – perguntei.
- Maria.

O ônibus chegou e o papo se estendeu durante o longo caminho de pó e buracos.
Maria nunca fez teatro, mas tornou seu problema tão interessante que eu teria ficado horas a ouvi-la. Ela falava com os olhos, com os gestos, com o toque de leve na minha mão ou no ombro quando a parte da história era mais importante. Chamava-me pelo nome, prendia minha atenção com seu discurso. Tinha cabelos lisos e o semblante cansado e marcado pelas rugas. Faltavam-lhe alguns dentes. Maria não era velha. Maria era linda. Maria era gente, dessas, de verdade.

Dei conselhos já ouvidos por ela e disse-lhe meia dúzia de palavras, também já conhecidas.

- A minha filha me disse a mesma coisa. Eu tenho é que querer mudar a situação, né? Tenho que dar o primeiro passo. Só tô esperando que ele apronte mais alguma coisa, tô esperando a gota d’água, entende?

O estranho ama.

A parada na qual eu iria descer se aproximava. A pressa, o movimento do ônibus - agora já no asfalto -, e as teclas pequenas não me permitiram fazer milagres: no meu celular, o sobrenome da Maria consta como “do bus”. O sobrenome, aliás, é detalhe quando se conhece gente assim, dessas, de verdade.

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