quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ópera

Tinha o nome glamoroso, mas não passava de um prédio simples, espremido entre tantos outros no centro da cidade. De estrelas, o hotel era pobre. Não tinha cinco. Nem quatro. Nem três. Nem duas míseras estrelinhas. Numa classificação geral – e quem viu não me deixa mentir -, o “céu” do estabelecimento estaria mais para uma noite escura e tempestuosa: zero de estrelas. 

Deixe alguém reservar hotel para você e descubra, sozinha, no que se meteu – pensei, logo que vi a fachada do hotel. O táxi partira. A mochila esperava no chão da calçada. O sorriso misterioso do taxista, assim que mencionei o destino, só faria sentido mais tarde: era “hotel de má reputação”. Na recepção, três caras conversavam. Pararam a conversa imediatamente após minha chegada. Atrás do balcão, um rosto surpreso me examinava. Na parede, atrás do homem, a sentença do castigo:
 
Quarto Single: R$ 37

- Os hotel tão tudo cheio – disse o atendente. Pareceu-me até que levantaria as mãos e, num gesto de quem se desculpa, diria: “é o que tem pra hoje”. Mas não havia necessidade. Era o que tinha e eu o sabia muito bem. Subi os degraus da escada agradecendo mentalmente pelo fato de ser um palito, “gorda como um prego”. Dessa forma, não ofereceria riscos à integridade da escada, que apresentava rachaduras capazes de deixar envergonhada qualquer placa tectônica que ousasse se movimentar. A integridade do prédio, aliás, era um tanto quanto relativa. Era íntegro porque ainda não havia desmoronado.

E o que era ópera foi virando marcha. Fúnebre. Foi perdendo o ritmo, a afinação.
Enquanto eu – sim, eu mesma - carregava a mochila escada acima, ouvia uma ou outra porta sendo aberta. Não se sabe por que, nem de onde vem “essa força estranha” que impele as pessoas a espiarem nos corredores – pelo menos nos do Ópera - assim que ouvem passos. Especulo que a causa seja a decoração interna, escassa de atrativos que prendam o olhar: a cama, as paredes pintadas com tinta cor-de-coisa-nenhuma, e o guarda-roupa crivado de adesivos e declarações de amor, esculpidas na base do estilete ou rabiscadas pela boa e velha caneta. Atraentes são os que fazem barulho no corredor. Os que conversam baixinho. As mulheres que denunciam sua presença com o toc toc  dos sapatos de salto.

Minha tese – que iria longe - sobre a “espiadela hoteleira” foi esquecida no momento em que fui apresentada ao banheiro.
Não. Não era no quarto: eu ainda estava a caminho.
Não. Não era um banheiro. Eram dois: um para os homens, outro para as mulheres. Na ausência de concorrentes do sexo oposto, os banheiros eram de quem chegasse. De quem quisesse. Contabilizei quantos banhos precisaria tomar. Só digo isso.
 ...
O atendente parou em frente à porta do quarto e explicou, enquanto fazia a demonstração:
- Essa porta tem um jeitinho para abrir, ó. É assim – disse, fazendo uma manobra milagrosa.  
- Entendeu?
- Acho que sim...
- Quer tentar?
Querer eu não queria, mas larguei a mochila no corredor e tentei.
Consegui. Agradeci. Fiquei a sós.
A porta aberta. A mochila no corredor. A voz do homem na cabeça, ecoando:
- Os hotel tão tudo cheio.
- Os hotel tão tudo cheio.
- Os hotel tão tudo cheio.
A porta fechada. A mochila nas mãos. A minha voz e a voz do homem na cabeça, ecoando:
- Os hotel tão tudo cheio.
- Será que consigo abrir essa porta pela manhã?
- É o que tem pra hoje, mademoiselle.

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Nota da autora: é ficção, vivente.

7 comentários:

Felipe Bastos disse...

FUUUUUUUUUUU! HAHAHA Que baita problema! Fiquei imaginando a cena a todo o instante. Bem tipo daqueles pensamentos: "O que estou fazendo aqui?" DEMAIS Cris!

Juliana Bencke disse...

Arrasou, Cris. Pra variar.
Vou poupar meus elogios para o dia em que eu escrever a orelha do teu livro. Ok?!

Anônimo disse...

Só vamos ler seus textos em datas comemorativas? Bora postar, guria! Xp

Cris disse...

Obrigada, pessoal, pelos comentários.
Sr. Anônimo, espero que os textos não sejam postados somente em datas comemorativas! Vou bater um lero com minha inspiração e solicitar sua permanência.

Voltem sempre!

Anônimo disse...

Um UP para você não esquecer que existe pessoas que entram aqui esperando novos posts.

Marco Túlio disse...

texto sensacional! muito gostoso de se ler, estamos precisando de jornalistas assim (:
Saudade. até do Ópera! hehehe

Lívia Luz disse...

ADOREEEEI!!!
Só quem viveu essa experiência, sabe como foi!!
Mas apesar de tudo, foi ótimo! Tudo!!! ;)
Precisamos de mais viagens dessas pra ter o que contar pros nossos netos! hahahaha
bjãooo amada!!!