sexta-feira, 23 de maio de 2014

O som do Juvenal


O som é insuportável. Duarte não acredita que possa estar vindo da esquina. “Definitivamente não”. A cama parece ter pregos. Rola, sem sossego, de um lado para o outro. Sua esposa, “a megera debochada”, parece não se importar com nada. "Como sempre. Só se preocupa com ela mesma e quando o assunto pode render uma boa fofoca”.

Foto de Nuno Fernandes - SXC.HU

Duarte acende a luz e senta-se na cama. Faz um bom tempo que está tentando dormir, e, agora, o infeliz do Juvenal ‘esgaça’ o som. “Lá da esquina”. Põe-se de pé. A esposa, já pensando em oferecer ao marido um daqueles remédios para dormir, pergunta a si mesma o que o “resmungão do Duarte” estaria aprontando a uma hora dessas. Está prestes a perguntar o que está acontecendo, quando Duarte reclama:
- Marilda, tem cabimento um som desses ligado a uma hora dessas? Eu tenho que acordar cedo amanhã. Já é meia-noite e quinze! Meia-noite e quinze, Marilda! Isso não cabe no possível!  Quer saber de uma coisa? Eu vou lá!
- Vai aonde, criatura sem sossego? Sossega o teu facho! Deita e dorme!
- Dormir? Com esse barulho que ele chama de música? Não. Vou resolver isso, e vou resolver agora!

Duarte leva dois bons minutos para encontrar o roupão, soterrado pela montanha de roupas que Marilda deixara no sofá, e que, pelo visto, não pretendia guardar tão cedo. “Sonsa”. Veste o roupão, calça os chinelos e sai. Só em frente a casa do Juvenal é que se dá conta de que está apenas de roupão e chinelos. Pior: “Chinelos e meias. Barbaridade!” Bate na porta. Nada. Bate mais forte. Nada. “Também, com uma barulheira dessas, não tem como me ouvir mesmo”. Bate novamente, ainda mais forte, a ponto de machucar os dedos.

Juvenal, com uma camisa listrada, de um time que não era da cidade, atende:
Duarte, que não gosta de rodeios, diz logo a que veio.
- Tu sabes que horas são, Juvenal?
- Boa noite, seu Duarte. Só um momentinho.
Duarte, com aquela cara de trouxa, fica parado na porta, enquanto Juvenal se retira. Ele volta e, sorrindo, responde:
- Meia-noite e vinte e dois, seu Duarte. Era só isso?
O sangue ferve. Duarte quase berra:
- Escuta aqui, meu caro, não te faças de louco. Será que dá pra baixar esse som enquanto a gente conversa?
- Só um momentinho, seu Duarte.

Duarte ouve o volume baixar – consideravelmente –, enquanto observa um dos filhos de Juvenal espreitando-o da porta, que julga ser a da cozinha. Com o nariz sujo e a barriga saliente, esfregando uma fraldinha no nariz, o menino não tira os olhos de Duarte, que, por sua vez, faz careta para o guri.
“Guri esquisito! Eu, hein? O Juvenal tem que ensinar esse piá a não encarar os outros. Se fosse meu filho, ‘tava na cama a essa hora!”.

Juvenal volta. A ira de Duarte se aplaca quando ele pensa que, talvez, naquela noite, o guri estivesse com mais problemas do que ele. “Afinal, se lá em casa o som chega daquele jeito, imagina como não estão os tímpanos desse moleque!”.

- Juvenal, não é querer ser grosso, mas já sendo: se tu não tens o que fazer amanhã, bom pra ti. Respeito a tua vontade de não trabalhar. Faz parte. Mas não me lembro de nenhuma eleição entre os moradores para escolhermos o DJ da rua. Se a gente tivesse votado, tu terias perdido. Amanhã, vou estar caindo de sono no serviço, e, se for demitido, a culpa vai ser tua! O gurizeiro vai pra escola e espero que nenhum volte com advertência por ter tirado um ronco na sala de aula. Agora, Juvenal, tu faz o favor de desligar essa porcaria. Vim aqui resolver isso na maior educação, como tu bem pode ver. Podia ter chamado a polícia, mas pra tu ver como eu sou um bom vizinho, não chamei.

Juvenal, após escutar tudo quietinho, sorri. Um sorriso “besta”. “Um sorriso bom. Funcionou”, - pensa Duarte. “Tudo resolvido”. Sem palavras, os dois se despedem. Duarte volta para casa saboreando o doce gosto da vitória. Na rua, só um ou outro cão latindo. Tudo mais é silêncio. Duarte sorri. “Agora vou poder dormir, finalmente”. Entra no quarto. Marilda ainda está lá, do mesmo jeito, sentada na cama.
- Tudo resolvido, então? Podemos voltar a dormir, Duarte?
- Tudo resolvido, gaúcha. Tu tá achando que tá falando com quem? Claro que tá resolvido. Uma boa conversa resolve tudo sempre. Não é o que dizem?

Duarte tira o roupão, descalça os chinelos e se deita de lado. Silêncio total. O travesseiro está confortável; o clima, agradável. Marilda ainda não dormiu, o que significa que, se ele pegar no sono antes dela, talvez não ouça o seu “ronco de acordar defunto”. Condições perfeitas. Duarte fecha os olhos. A música recomeça. Agora, num volume um pouco mais alto. Duarte abre os olhos e fita, fixamente, a parede, com um olhar tão besta quanto o sorriso do Juvenal. Ele não se move. Não acredita. Ainda olhando para a parede, ouve a esposa, debochada, sentar-se na cama. Em seguida, sente a mão dela tocar-lhe ombro.

- Duarte. Ô, Duarte. Quer dançar?

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O velho e o cobrador



O ônibus, em condições decadentes, fazia bastante barulho. Havia poeira acumulada nos bancos – alguns, rasgados – e nas janelas, que vinham abertas. Os passageiros mais perspicazes entenderiam a proposta: desenhar no pó sempre fora um jeito lúdico de extravasar a arte – as mãozinhas das crianças e os carros sujos, indefesos, no meio da rua, sabiam disso muito bem.

O descaso com o veículo já nem era percebido. Acostumadas a ter pouco, as pessoas contentavam-se com o que tinham. As cortinas das janelas não viam água e sabão há muito tempo: nem o sol, ardido, no rosto dos passageiros, era motivo suficientemente forte para que estes as tocassem. A velha roleta, localizada próximo à porta traseira, fora abandonada pelo jovem cobrador, que se equilibrava no corredor, catando trocos na velha pochete. Ainda assim, cumpria sua função: girava e girava, seguindo a marcha dos corpos. Um moinho de gente. Um moinho de gente cansada. 

Assim que o ônibus parou, o velho, corpulento, de olhos claros e cabelos brancos, entrou pela porta da frente. Nas mãos, trazia uma sacola plástica com meia dúzia de coisas. Contrariado, reclamou com o motorista. O motor, que berrava alto, impediu os demais passageiros de compreenderem a causa da insatisfação. Ainda de pé, equilibrando-se, o velho dirigiu seu vozeirão ao cobrador. A queixa: o ônibus não havia parado para recolhê-lo, uma ou duas horas antes, em outra rua da cidade. O cobrador alegava, sem muita paciência, que não podiam recolher ninguém que estivesse fora do ponto de ônibus. A discussão se arrastava. Os passageiros, confusos, esforçavam-se para entender o que acontecia – e disfarçavam o incômodo como podiam.

- Tu paga passagem? – perguntou o cobrador.
- Não – respondeu o velho.
- Então, não tem direito de reclamar.

Alguns segundos depois, as vozes alteradas se calaram. O barulho do motor voltou a reinar, absoluto, sufocando o silêncio daquela gente cansada demais para dizer o que deveria ser dito àquele jovem, que também será velho, embora, aparentemente, tenha se esquecido disso.

O cenário: no Brasil, estima-se que, em 2030, o número de pessoas com idade superior a 60 anos representará 18,62% da população. No Rio Grande do Sul, a população de idosos corresponderá a 24,28% do total de habitantes do estado (que será de, aproximadamente, 11,5 milhões). A projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em agosto de 2013, foi baseada no aumento da expectativa de vida e nas quedas das taxas de natalidade e fecundidade.

Em Taquari, cidade na qual vivem o velho e o cobrador, os resultados do Censo Demográfico 2010 indicaram uma população de 26.092 habitantes, dos quais 3.703 (14,19%) tinham idade igual ou superior a 60 anos – 1.628 homens e 2.075 mulheres (veja no gráfico). 

Fonte: IBGE
Clique na imagem para ampliá-la

O ensaio: neste cenário, os atores precisam estudar o roteiro, lidar com o improviso, treinar em frente ao espelho. O idoso é o reflexo no espelho. Um reflexo do futuro. Suas rugas e seus cabelos brancos profetizam uma realidade que pode parecer distante, mas chega, mais tarde  ou mais tarde.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013

Meus balanços de final de ano tendem à repetição. Sim, porque sempre compro (ganho) vinis, sempre tomo banhos de chuva memoráveis, sempre leio (ganho) muitos livros, sempre reclamo de quase tudo. Sou previsível. Por acreditar que as coisas se repetiam demais, não fiz uma retrospectiva em 2012. Ainda que repleto da rotina que tanto amo, 2013 teve lá suas novidades: o teclado (quem lembra?) foi, finalmente, consertado. Obra de caridade de uma amiga. Hoje, posso tocar minhas músicas favoritas, embora fique devendo o som de três notas, em duas oitavas diferentes (seria esperar demais que, depois de tanto tempo, ele ficasse 'bom' por completo, não?).

 

Vi cristão compartilhar horóscopo, vi pastor vender bênçãos, dei de cara com uma imensidão de erros gramaticais no Facebook. Vi os ativistas de sofá irem para a rua, "a maior arquibancada do Brasil". Passei quatro meses estudando, procrastinando e escrevendo a monografia. Chorei. Pensei que não daria conta. Passei outros quatro meses procrastinando, planejando e executando o projeto experimental. Criei, com a melhor parceira que o curso de jornalismo poderia me oferecer, um site para o 2º jornal mais antigo do RS ainda em circulação, O Taquaryense (Valeu, Ju!).

Gente honesta no Congresso - Imagem de klassmannlucas

Recusei ofertas de emprego, chorei com a morte de dois amigos (a vida anda meio previsível neste quesito). Certifiquei-me de que um certificado não faz alguém ser melhor do que outro. Reclamei do frio, fui xingada por gostar de calor (haters, sempre eles), fiquei feia nas fotos de toga, detestei a maquiagem. Salvei marimbondos que estavam se afogando na piscina, fiz desenhos péssimos com giz de cera, dei água para passarinhos. Tive aulas chatíssimas. Tive aulas maravilhosas. Conheci o som da banda Rival Sons. E o do Keaton Henson (nada de "Mmmbop". É Henson, não Hanson). Ouvi (e gravei) meu pai cantar no escuro, num momento mágico e deliciosamente desafinado. Fui num concerto de rock (com orquestra e tudo), comi bolinho de chuva em dia que choveu e em dia que fez sol.


Foto: Cristiane Lautert

Entrei em crise, várias vezes: existencial, profissional, de sinusite. Saí de todas elas. Ensinei minha mãe a usar o Facebook e o meu pai a ver todos os vídeos que quiser, no Youtube. Voltei a falar com um amigo querido. Encontrei outro amigo que não via nem ouvia há muitos anos. Senti falta do Zé. Fiz lacinhos de fita nos convites de formatura (caridade de outra amiga). Troquei cartas com gente maravilhosa. Escrevi algumas na máquina de datilografar. Esqueci de contar várias coisas, mas isso já era de se esperar.

Foto: Cristiane Lautert




segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Pele

Abri vários sorrisos.
Desamassei minha cara fechada,
Concentrada demais.
 
Por isso as rugas.

Foto de mamjakty

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Diálogos contemporâneos

- Tu e o meu celular possuem algo em comum.
- Somos modernos?
- Não têm crédito.


 - Tu jogas paciência?
- Sim, quase todo dia.
- É mesmo?
- No lixo.



- Estou numa fase difícil. 
- O que houve? 
- No Candy Crush, digo. 



sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Os corações dos donos dos guarda-chuvas

Imagem de my-walls.org

Quando Maria se foi, pareceu mentira, sonho ruim, brincadeira de mau gosto.
A notícia entrou pelos ouvidos e encontrou-se com a incredulidade. Deu algumas voltas dentro da cabeça e saiu pela boca, em forma de pergunta, num volume que despertou a atenção dos demais passageiros do ônibus.

- Quê?

Era difícil demais acreditar naquilo. A Maria. A mulher que tirou foto comigo quando eu tinha dois anos. Que tinha guardado o convite do meu aniversário de 26 anos atrás. Que tomava chimarrão todo santo dia. A esposa do Nelson. A vizinha que recolhia as roupas do nosso varal quando chovia e não estávamos em casa; que as trazia dobradas, mais tarde. A Tuca, que mantinha as unhas dos pés impecáveis. Que se arrumava para sair e perguntava se estava bonita. Que sempre tinha doce na geladeira. Que era diabética. A Maria, de nome comum, mas tão diferente. A Maria Valdeni.

Jovem demais. Como assim alguém sai dessa vida sem ter envelhecido o suficiente? Sem ter passado pelos 70, 80 anos? Como alguém parte sem ter cabelos brancos e sem assumir aquele ar de sabedoria e doçura que a idade impõe até aos mais rabugentos?

Próxima demais. Como abrir a janela e não vê-la? Como passar em frente à soleira da porta, na qual ela costumava se sentar, e não esperar encontrá-la? Como assim ela não vai estar presente na minha formatura? E as tardes de chimarrão, agora, como ficam?

No dia da despedida, o céu chorou chuva. Era tanta a tristeza que o dia pintou o cenário de cinza. Os guarda-chuvas se espremiam em meio aos túmulos. Seus donos queriam dar o último adeus. Os corações dos donos dos guarda-chuvas também se espremiam. Chovia sobre todos. Uma chuva pesada e fria; implacável. Os olhos também choviam. Uma chuva leve e quente; inconsolável.




sexta-feira, 16 de agosto de 2013

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Velharia

Estou envelhecendo - todo mundo está -
 e preferindo 
os silêncios, 
os meus discos, 
alguns livros, 
a calma, a cama e o chá.

Imagem carinhosamente cedida por Angélica Viana


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Quem namora



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Texto publicado no Caderno Especial do Dia dos Namorados do jornal O Açoriano.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Escape

Ela queria escrever, mas as palavras fugiam das pontas dos dedos.
Sem entender o que acontecia, desistiu.
As palavras - ela compreendeu mais tarde - queriam sair pelos olhos. 
E rolar face abaixo.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Mais música - Rival Sons

Poucas vezes escrevi sobre música no blog. Tenho um certo ciúme das bandas que descubro (como se ninguém mais as conhecesse) e gosto de guardá-las para mim. Quando decido revelar minhas descobertas - para os amigos mais chegados, normalmente -, faço com que eles passem por um verdadeiro ritual: são obrigados a ouvir sobre a banda, sobre os integrantes, lêem entrevistas e recebem os links dos melhores vídeos. Tudo por minha conta, óbvio. Depois de apresentar a banda aos queridões, apresento para o resto do meu mundo, nas redes sociais. E é claro que a maioria não dá bola. 

Mas quando a banda é boa, boa mesmo, não dá tempo de fazer isso. Descubro e largo no mundo, assim, direto. Foi exatamente isso que aconteceu quando ouvi a Rival Sons pela primeira vez. Os caras fazem um blues-rock de altíssima qualidade. Fui transportada para outra época, reconheci as influências e corri para as redes sociais - o blog, que exige mais do que uma simples frase e um link, ficou por último.

A banda gravou quatro álbuns (um é EP): 

Before the fire, de 2009

1. Tell me Something
2. Lucky Girl
3. Memphis Sun
4. Angel
5. Pocketful of Stones
6. The Man Who Wasn’t There
7. Pleasant Return
8. On my Way
9. I Want More
10. Flames of Lanka
11. Nanda-Nandana





Rival Sons EP, de 2011



1. Get What’s Coming
2. Torture
3. Radio
4. Sacred Tongue
5. Sleepwalker
6. Soul









Pressure and time, de 2011.

1. All over the Road
2. Young Love
3. Pressure and Time
4. Only One
5. Get Mine
6. Burn Down Los Angeles
7. Save Me
8. Gypsy Heart
9. White Noise
10. Face of Light





Head down, de 2012.

1. Keep On Swinging
2. Wild Animal
3. You Want To
4. Until the Sun Comes
5. Run from Revelation
6. Jordan
7. All the Way
8. The Heist
9. Three Fingers
10. Nava
11. Manifest Destiny Pt. 1
12. Manifest Destiny Pt. 2
13. True


Vamos ao que interessa? Os vídeos valem a pena, garanto.
Sobre o vocalista: quem pensa que canta bem deveria ouvir o Buchanan primeiro. Depois, deveria repensar e, quem sabe, desistir.









sexta-feira, 10 de maio de 2013

Prece


As mãos envelhecem depressa, entregam a idade. 
Que envelheçam, então, estendidas a alguém; 
que envelheçam tendo outras mãos para segurar.

Foto de Julia Freeman-Woolpert



quarta-feira, 8 de maio de 2013

A vida é linda, com todo o pacote

E tudo bem se as pessoas se afastaram. A gente as carrega no peito mesmo assim. Porque isso é nosso. Só nosso. É a vida na íntegra. Esquecê-las é esquecer do que a nossa história conta. Algumas pessoas a gente ama para sempre. Mesmo que doa.

A vida é linda, com todo o pacote.



Acordei pensando nisso e ouvindo um cara que faz música de um jeito maravilhoso: Keaton Henson. De um jeito intimista, de um jeito triste, de um jeito só dele, ele consegue colocar em suas letras e melodias aquilo que a gente considera só nosso: a tristeza, a solidão, o coração partido. Difícil não se identificar ou não adotar uma de suas músicas como trilha sonora para pensar na vida. A trilha de hoje é You don't know how luck you are, do álbum Dear. Quanto ao clipe: simples e sensacional.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O que sobra com o que falta


É comecinho de noite. O chimarrão passa de mão em mão. Pai, mãe e filha, na cozinha, assistem ao noticiário na “caixa mágica”. A cozinha é o ponto de encontro da família que, na maioria das noites, fica incompleta – a filha estuda longe e chega tarde. A janela arredondada está aberta, mas ninguém presta atenção na noite que chega. Nenhum olhar é dirigido a ela. A família está reunida, mas o momento, raro, passa despercebido. Estão todos ocupados demais. Falar interromperia a lógica da coisa toda. O telejornal exige atenção. Não dá para fazer outra coisa ao mesmo tempo. Tirou o olho da tela, perdeu.

Uma queda de luz escurece a casa e cala a TV. As três bocas, finalmente, podem falar. O trio permanece sentado. A janela assume seu lugar no ambiente. A luz da noite que recém começa entra, mas não ilumina o suficiente. As memórias vão chegando devagar.

- Antigamente era assim. Lampião, vela, o barulho da noite – lembra o pai.
- As pessoas iam dormir cedo – emenda a mãe.
- É gostoso isso. Dá para conversar – observa a filha.

Os três aproveitam o momento por alguns instantes, em silêncio, até que o pai é tomado por uma súbita vontade de cantar. Mãe e filha são pegas de surpresa. Ele canta alto, se diverte, ignora as risadas das duas, varia o repertório de músicas antigas.

- Mas isso até é coisa pra se filmar e colocar na internet – sugere a mãe.
- Vou pegar a câmera!

O vídeo, é claro, está escuro, mas ficou divertido:


Memórias. Música. Escuro. Risadas. É o que sobra quando a luz falta.

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O cantor inspiradíssimo do vídeo é o meu pai, Sílvio Felipe Soares.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Amanhã eu começo


Escreverei o livro "A arte de procrastinar". Vou começá-lo amanhã.

Enrola o que pode. Calcula o tempo que será gasto na tarefa e o tempo que ainda resta: ainda dá tempo de não fazer.
- Amanhã eu começo.
O regime.
A pesquisa.
A organização do quarto.
O regime (sai pra lá, fixação).
Whatever.
Quem procrastina adia um problema, mas não adia a preocupação. O procrastinador tem peso na consciência: sabe que é melhor aproveitar o agora, mas tem certeza de que deveria fazer o que tem de ser feito de uma vez por todas. Alivia o sentimento de culpa gratificando-se com pequenos prazeres. Troca a obrigação pelo divertimento.
- Nunca mais assisti a um filme à tarde. Faço isso, hoje, e, amanhã, começo a escrever. Dá tempo.
E corre e faz pipoca e chama o amigo e posta foto da pipoca no Instagram.
Assiste à Sessão da Tarde com o sentimento de culpa deitado numa almofada em seu colo.
- Está tudo sob controle - diz a si mesmo.
Na tentativa de sentir-se útil, deixa de lado os pequenos prazeres. Começa a riscar, da lista de procrastinação, as tarefas menos importantes:
Trocar as cordas do violão.
Lavar os discos de vinil.
Organizar a gaveta (uma só, que é para não cansar).
Ainda assim sofre. E sofre por livre e espontânea vontade. Em vez de matar um leão por dia, deixa para enfrentar dois ou três, de uma só vez. Sabe-se lá quando. Há leões que parecem grandes demais para o procrastinador matar em plenas férias, com todo esse sol.
Se conselho fosse bom (e se viesse de alguém que não procrastina - o que não é o caso de quem vos escreve), seria mais ou menos assim:
Descabele a juba do leão! Se é preciso enfrentá-lo, que a provocação seja bem feita! Não adianta esperar na moita: o leão não vai embora. Mate o bicho de uma vez.
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Nota da autora: amo leões, ok? Os de verdade e não os que deixo para matar depois.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Entrevista com Elenor José Schneider

Sim, querido leitor, estou te pegando pelos cabelos colarinho e dizendo:
- Excluo o blog se a entrevista com o professor Elenor José Schneider, abaixo, não for boa.

É preciso esclarecer: o programa foi desenvolvido para a disciplina de Produção em Radiojornalismo II (Unisc), sob orientação da professora Veridiana Pivetta de Mello, no 2º semestre de 2012.  Então, queridões, nada de analisar o desempenho dos alunos, ok? Estávamos aprendendo a lidar com um conjunto de fatores estressantes: a pressão, os microfones, a g-g-g-ga-gagueira, o cara da técnica, o "não pode errar". Portanto, foquem no que o mestre tem a dizer, para que eu não tenha que excluir o blog. Obrigada. De nada.

Fica o registro (e tem muuuito mais):
"Uma boa aula só existe quando há um professor que quer dar uma boa aula 
e quando há alunos que querem participar dessa aula".
"Os poetas são capazes de fazer sínteses que a gente é incapaz de fazer".

Ficha técnica:
Apresentação: Juliana Bencke e Josiane Goetze
Edição: Cristiane Lautert e Letícia Wacholz
Técnica: Gabriel Steindorff
Trilha do poema: Devendra's Butterfly, de Guilherme Zapata

Caso não toque, clica aqui: Entrevista com Elenor Schneider 

Tu também podes te interessar por: Algumas "letras" sobre um mestre

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Divisão

Eu devia dividir o sentimento
ou sentir menos,
ofertar-te uma parte, pelo menos.

É muita coisa pra trazer no peito;
a metade eu te ofereço.
carrega um pouco, abranda o peso.

É no abraço que te passo o fardo
deste amor pesado que carrego em mim.
O abraço é cálculo dos mais difíceis,
que já me explicaram, mas nunca entendi.

Entre o dividendo e o quociente,
o divisor é consciente do amor guardado aqui?



domingo, 13 de janeiro de 2013

Cresce número de assassinatos em Taquari

Embora Taquari seja uma pacata cidade do interior, não é preciso andar muito para dar de cara com a cena de um crime. Assassinatos acontecem em várias ruas, todos os dias. Tornaram-se corriqueiros. O curioso é que os crimes são sempre contra a mesma vítima.

- Mas como assim? Não se pode ser assassinado mais de uma vez, Cristiane!

O Português pode. E não me refiro ao português da padaria, que fique claro.

Numa caminhada de aproximadamente uma hora e meia, fomos testemunhas (eu e o Isma) de vários assassinatos.

AVISO: IMAGENS CHOCANTES!

Ah, o acento indicativo de crase sempre se metendo onde não é chamado!




Lembrem-se: humildade é tudo, desde que não venha com acento agudo, ok?

Humildade sempre. De qualquer jeito.


Sempre tive a-que-la vontade quase incontrolável de tascar um acento circunflexo na palavra melância melancia. Sigo resistindo bravamente, mas a tentação foi mais forte para o cara que bolou a placa abaixo. Antes fosse só isso, mas tem mais. Bora concordar essas pessoas?

Compre - Venda - Troque - Financie

ou

Compra - Vende - Troca - Financia

Finância, parente da melância, conhece?


Bebeu água? Tá com sede? Olha, olha, olha, olha a água minnral. Água minnral ♫




Rua nova em Taquari! Corram para as colinas o Google Maps!




Por fim, uma placa pela qual garrei amô. Atenção para o "crente da igreja".

Tudo bonitinho até colocarem o "à vista" sem acento indicativo de crase.


Entenda:
As fotos são ruins porque o celular não ajuda.
A Rodovia Aleixo Rocha da Silva encabeça o ranking dos assassinatos.
Os números de telefone foram escondidos mal e porcamente.



quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Uma discreta descrição


O cursor pisca, incessantemente, no documento aberto na tela do computador. Pede um texto, dois parágrafos que sejam. Eduarda, de pijama azul e pantufas de coelho - cujas orelhas se movimentam ao sabor dos passos dados pelos pés da dona -, levanta-se e vai à cozinha. Precisa de café para escrever. Passa pela sala, olha os quadros na parede. Procura uma ideia para o texto. Com os cabelos bagunçados e os olhos ainda manchados de rímel, Eduarda passa pelo pai, que assiste a TV, sentado no sofá. Ele recebe-a com um “boa tarde”. Eduarda franze o cenho. Olha para o relógio na parede: 12h05min. Ela devolve o “boa tarde” com um sorriso. O pai balança a cabeça e sorri. Já está acostumado à rotina da filha: dorme tarde, acorda tarde e escreve.

Eduarda põe o café na xícara, abre o micro-ondas, estipula o tempo de um minuto e fecha-o. Espia a TV. Está passando uma reportagem sobre cubos mágicos, num telejornal. Ergue a sobrancelha direita. A risada não tarda a aparecer.
- Quanta relevância! - pensa. 
Desvia o olhar da TV e atenta para a contagem regressiva do micro-ondas. Cancela a operação no último segundo restante - odeia os três apitos do aparelho. Pega a xícara, passa novamente pelo pai, dá-lhe um beijo na barba por fazer, e volta ao quarto, com as orelhas das pantufas anunciando um tombo a cada passo. Repousa a xícara em frente à tela, senta-se e encara o cursor novamente. Eduarda precisa fazer uma descrição. Tal qual a de Gay Talese sobre Frank Sinatra. Eduarda é estudante de jornalismo.

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Microconto



Fiquei encantada com o microconto (chamemos assim) que minha amiga e colega de curso, Juliana Bencke, escreveu. Reproduzo as linhas:
Quando o telefone tocou, ela não correu para atender. Pé por pé, atravessou a sala calmamente. Quando o aparelho tocou pela terceira vez, ainda faltavam dois metros até a escrivaninha, e ela aproveitou para agarrar o gato que cruzava a sala naquele momento, de olho no prato de macarrão que ela havia deixado em cima da mesa da cozinha. Na quinta chamada, alcançou o fone. Apesar do nervosismo do que estava no outro lado da linha, conversou com naturalidade. Sem largar o gato, puxou uma cadeira que estava por perto e sentou. Não que tivesse se assustado. Pelo contrário, continuou alisando o pelo do bichano com cuidado e olhando para o porta-retrato acomodado em cima da escrivaninha como se, assim, pudesse compreender certas coisas. Não se preocupou em colocar o fone de volta no gancho. Deitou, com as pernas encolhidas, no sofá de dois lugares e chorou por meia hora. Almoçou quieta a comida fria, vestiu o único vestido preto – usado em todos os funerais – e saiu. 
Juliana Bencke

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Regresso



Imagem de H Rotgers

Deixei meu coração naquela rua.
Deve estar em algum buraco 
daquela estrada de chão.
Deve estar na cor das casas,
nos cachorros no portão.
Deve estar no velho número
daquela antiga casa, 
doce e amarga prisão.

Deixei meu coração naquela rua.
Deve estar, ainda, batendo entre as tuas mãos.
Preso, indefeso, me esperando.
...
Desde que o deixei,
o tempo, a vida, o pensamento,
o olhar e a lágrima estão suspensos.
Talvez eu volte para buscá-lo, um dia.
Talvez eu nunca tenho saído de lá.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Protesto


Imagem de abcdz2000

Aquela frase boa - o começo de uma história, talvez - pipoca na mente, do nada.
- Não preciso anotar - penso, sabendo que sim, preciso desesperadamente, porque vou esquecer (como sempre faço).
A frase corre, pula, faz protesto, grita, traz outras para a manifestação, me obriga a sair da cama, acender a luz e procurar por uma caneta.
Anoto-a. Anoto as demais - essas escandalosas! 
Espero.
O protesto acaba. O silêncio chega.
Espero. Nada.
- Devem ter ido embora.
Apago a luz. Deito-me. Fecho os olhos e ouço nova algazarra: voltam elas, trazendo mais manifestantes pela mão. Não tem jeito: no mundo das ideias, quem tem sono precisa sonhar acordado. E escrevendo.

Conselho


Corrige-te, coração corroído. 
Corre.

Imagem de Alex Bruda

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Pequena artista

Andava pela estrada de chão 
e catava pedrinhas, que, 
mais tarde, 
coladas em uma folha de ofício, 
formariam a rua de uma "obra de arte".

Imagem retirada daqui

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Luta perdida

Vencedor do Prêmio Jabuti, em 2005
Viúvas da terra: morte e impunidade nos rincões do Brasil (2004), do jornalista Klester Cavalcanti, narra a história de mulheres que perderam maridos envolvidos na questão agrária, no sul e sudeste do Pará. Com 183 páginas, o livro publicado pela editora Planeta rendeu ao escritor o Prêmio Jabuti na categoria Livro-reportagem, em 2005. A matéria que deu origem à obra, publicada na revista Terra, em novembro de 2002, foi finalista do Natali Prize, prêmio considerado o mais importante do mundo na área de Jornalismo de Direitos Humanos.

Viúvas da Terra é resultado de cinco anos de pesquisa sobre a violência que ocorre no meio agrário brasileiro. A lista de entrevistados pelo escritor é extensa: mais de 70 pessoas, entre parentes de vítimas, sobreviventes de massacres, advogados, policiais, sociólogos e acusados.  Para contar os casos narrados no livro, mais de três mil páginas de inquéritos policiais e de processos judiciais foram analisadas. Um árduo trabalho com o intuito de trazer à tona a realidade de agricultores submissos a fazendeiros que fazem as próprias leis.

Os personagens da obra estão diretamente envolvidos na luta pela reforma agrária. De um lado, trabalhadores rurais e sindicalistas, que sonham em conquistar um pedaço de terra para sustentar a família; de outro, fazendeiros, madeireiros, políticos e empresários, prontos para responder de forma truculenta a quem ousar contrariar suas ordens. Diferentes histórias são contadas, mas fica evidente o que elas possuem em comum: as viúvas enfrentam a falta de condições para manter a casa e, impotentes, assistem à impunidade dos crimes que desestruturaram suas famílias.

Mais do que evidente, o descaso da Justiça em relação aos homicídios é gritante. As estatísticas denunciam a impunidade: dos 1.373 assassinatos que se deram envolvendo disputas agrárias no país, apenas 122 foram a julgamento, no período de 1985 a 2003. Houve nove condenações e, até a conclusão do livro, nenhuma prisão. Nos seis casos apresentados pelo autor, por mais consistentes que fossem as evidências, predominaram a desobediência à lei e o retardamento dos processos judiciais.

Lições

O livro traz preciosas lições para os profissionais da comunicação. A ideia de investigar e publicar a realidade da questão agrária surgiu com a observação de notas relativas aos assassinatos de agricultores, nas páginas dos jornais do Pará. Daí a importância de os comunicadores estarem atentos ao que é recorrente na mídia, e, portanto, encarado como habitual e não merecedor de atenção.  Viúvas da terra denuncia, literalmente, não ao poder judiciário o que já é de seu conhecimento, mas aos brasileiros - alheios à causa - a realidade timidamente apresentada nos jornais diários.

Além disso, o livro revela os nomes verdadeiros dos advogados, juízes, desembargadores e promotores, que cumpriram ou não sua função. Nomes fictícios deixariam a credibilidade do trabalho à mercê de especulações. Para Cavalcanti, "o jornalismo tem que ser comprovável". As lições continuam: as poucas, mas densas páginas de Viúvas da terra apresentam forte carga emocional. Na narrativa, o jornalista faz uso de recursos literários e de observações minuciosas para montar o cenário na mente do leitor – prova de que apuro literário e sensibilidade, quando bem dosados, não descaracterizam o estilo jornalístico.

O sopro de realidade proporcionado pela leitura da obra é um alerta à sociedade, aos comunicadores e à Justiça. A reforma agrária, pouco discutida nos dias atuais, é questão não resolvida no Brasil. É luta perdida para milhares de agricultores. A função do jornalista é apontar o problema e evidenciá-lo a ponto de abrir os olhos da sociedade, e nisso, Klester Cavalcanti não deixa a desejar. Viúvas da terra cumpre, com extrema competência, o seu papel: revela, perturba, revolta e comove.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Estrelas cadentes

Caminho pelo céu e chuto estrelas
- As pedras do negro véu.
É tudo quieto, só ouço isso:
O pensamento, o andamento, o reboliço.

Aqui embaixo, fazes um pedido.
Depois exclamas, embevecido:
- Olha! Estrelas cadentes!

Imagem de Renate Kalloch


Banda de garagem



Quando criança, queria ter uma banda e ensaiar na garagem. 
A família nunca teve carro - nem espaço para o ensaio. 
Viu o sonho ir pelo ralo.

Foto de Ana Labate
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